Gente que inspira

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7 de set. de 2015

A minha história









Eu cresci ouvindo histórias. Algumas contadas pelo meu pai e pela minha mãe, outras ouvidas das bocas nativas no interior onde cresci e em outros que visitei.  E cresci também ouvindo, no mínimo e sempre, duas versões diferentes de uma mesma história. Meu pai explicava sobre o folclore e apartava definitivamente qualquer parentesco das lendas com a realidade. Minha avó (mãe do meu pai) ensinava sobre o poder do canto das sereias, e afirmava que nenhum pescador estava imune ao feitiço vindo das águas. Meu pai contava muitas histórias, lia livros quando não sabíamos ler, comprava muitos livros e brincava com a imaginação. Mas fazia questão de deixar clara a diferença entre o “conhecimento” e as “crendices”. Minha avó era crendice pura, e aquilo fascinava.  Fui uma criança excessivamente imaginativa. Mas, em algum ponto da caminhada, a imaginação abandonou-me.  Caminhei por um bom tempo em linha reta, extenuada pela aridez da “realidade”, esse deserto sem oásis. Até que, essencialmente, a Arteterapia me salvou de mim mesma. Essa terapêutica é uma espécie de evocação à criança perdida no caminho, e, quando nos abrimos, seu resgate subsequente.
Mas os “encontros” ainda se dariam.  A dedicação a estudar Jung e autores outros que pudessem ampliar minha sensibilidade não foi o suficiente para amenizar a sensação de que a Psicologia carecia de “poesia”. Porque a poesia sempre foi uma paixão e um caminho. E eis que um sonho, sonhado dormindo, me mostrou pegadas poéticas nas areias Psi.  James Hillman viera, então, traduzir e dar amparo ao meu anseio. Junguiano, criador da Psicologia Arquetípica, considerado um dos expoentes da psicologia pós-junguiana, Hillman denunciou a “ausência de alma” na psicologia (o que eu chamava de “falta de poesia”) e recuperou o status da Imaginação, enquanto aspecto importante da Realidade, a sua contraparte, poderíamos dizer.  E um pouco mais poderia falar aqui da Psicologia Arquetípica – esse é um mundo que ainda começo a descortinar –, mas deixo aqui o convite para a vivência como oportunidade de conhecer e experimentar uma abordagem “almada”, como ele propôs.  A ciência não dá conta da Alma. É preciso estreitar nossas relações com a Poética. A vida que vivemos não merece uma leitura restrita a dores, transtornos, perdas, traumas, angústias, clichês que empobrecem qualquer história e impedem um novo olhar. Não que não tenhamos vivido tudo isso – até podemos e certamente essa é a crença da maioria –, mas não “exatamente assim”, como nos contaram e como nós próprios contamos.  A proposta da vivência é um novo olhar sobre a nossa história.  O que foi vivido... foi vivido. Mas a maneira de compreender e os sentidos usurpados da nossa história através da exclusão da dimensão imaginativa são “reencontrados” por meio de olhos encantados, por meio da Alma. E, assim, podemos contar a nossa história de outro ponto de vista, do ponto de vista da Alma, que esteve tanto tempo ausente e é nossa convidada especial.  É também desejo nosso – numa segunda etapa dessa vivência – organizar um livro com todas as histórias recontadas, num contexto onde a Arteterapia Junguiana e Pós-junguiana servirá de pano de fundo.

Para que o trabalho continue sendo uma surpresa, posso apenas adiantar que será um trabalho profundo, onde a Arte será a linguagem predominante.  Algumas técnicas arteterapêuticas serão utilizadas com o propósito de acessarmos o mundo imaginário povoado de vidas reais. Teremos a presença de Afrodite. Beleza e Alma garantidas. O resto será Poesia, devolvendo-nos as cores originais das nossas imagens. Tudo na Natureza. Fica o convite.

11 de mai. de 2015

Me ajuda a olhar?




Imagem Web


A lua exerce um fascínio eterno nas pessoas. Resistiu ao desencanto que assolou o mundo, ao tédio das retinas, à vulgarização do sublime. Cada olhar em direção à Lua cheia é um espanto que não enfraquece, e é sempre um olhar primeiro numa sucessão infinita de olhares estreantes. O homem foi à Lua, mas São Jorge continua lá, e a luz emprestada ao satélite ainda faz com que os olhos brilhem. É preciso encontrar tempo e espaço para olhar a Lua, as estrelas, estabelecer um contato amoroso com elas e utilizá-las como portais para outras dimensões de nós mesmos. Dimensões desconhecidas, quem sabe extasiantes.
Umas das causas do consumo excessivo de drogas, por parte de garotos e garotas, é justamente a deficiência imaginativa. As cataratas que obstruem a beleza das coisas ínfimas. A pessoa imaginativa produz seus devaneios naturalmente.Que podem ser belíssimos. Contudo extirparam o órgão imaginativo dos homens. Eles já não semeiam realidades com sementes oníricas.
Muitos jovens sentem-se entediados em locais onde a Natureza é a grande estrela. Dizem não ter nada para fazer lá. Porque olham com descaso a flor solitária nas dumas de areia. Porque não sabem ver na majestosa solidão da flor uma metáfora para comportamentos e sentimentos humanos.
Também falta ternura. E ternura é algo na maioria das vezes desconhecido.
Mas o ser humano haverá de esgotar sua fome exacerbada pelos desejos materiais, e então terá início um apetite de ternuras, um anseio por asas, o orgasmo do olhar diante da beleza da mulher, do homem, das espumas do mar..
E volto a lembrar o poder do satélite com luz emprestada. Também dou-me conta do brilho da escuridão. A escuridão tem luz íntima, voltada para dentro, e um dia talvez todos possam enxergá-la. Do mesmo modo, a luz cria trevas ofuscantes, fogo derretendo íris. É preciso não esquecer que, sim, há muitos mistérios não desvendados pelas nossas vãs filosofias.
Também o esplendor das palavras se perdeu. Resta-nos apenas clichês sacralizados com os quais se evoca o Divino. São delírios maculados pela insanidade dos que sustentam um Deus com os dízimos. Eles mal olham pro céu e nada entendem sobre constelações. Toda a sua energia é gasta para combater o Demônio. A esses, só o Demônio poderá salvar. E aí talvez consigam promover o encontro entre seus olhos e o céu estrelado.
Acho que essa história traduz a minha direção principal no exercício da Arteterapia:


A função da arte

Eduardo Galeano

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!

Os olhos encantados precisam de outros olhos para dividir o fulgor. E assim vamos semeando sonhos...

Pólen no olhar






Arte: John Ballou Newbrough



(Dedico aos colegas Arteterapeutas )





Nas minhas ficções pessoais enquanto arteterapeuta, às vezes imagino que sou aprendiz de borboleta, cuja função na vida é, essencialmente, polinizar olhares desencantados.  Digo-me aprendiz, porque creio que todo terapeuta é sempre um aprendiz de si mesmo, e os pacientes são fragmentos de sua própria Dor materializada. No fundo, imagino que um dia alguns se reconhecerão estrelas de uma mesma constelação há muito desmanchada.
Esse é também o Devaneio que alimenta a loucura de amar a humanidade, o paraíso do chão, onde os deuses enfraquecem homens e mulheres e atiram os animais numa selva insólita e petrificada, entregues a sua própria sorte. Sim, é preciso amar profundamente o que é humano, o que ainda rasteja, alheio a asas que clamam por libertação.   Acredito que esse deva ser o Primeiro Mandamento para aqueles cujo destino é cuidar do outro, conhecer a textura subjetiva dos seres humanos. É preciso amar o pó da terra como amamos o brilho das estrelas.
Dentro dessa percepção, questiono-me sobre o papel real das religiões, indago-me a respeito dos instintos artificialmente domados, da imposição de “caminhos da salvação” estreitos, sufocantes, paraísos forjados de modo a desmerecer o que humano, a obscurecer a Beleza terrena, a negar a possibilidade de se viver o sagrado por meio de cada gesto profundamente humano.  Talvez, de tanto buscar no alto o sentido da existência, desaprendemos a olhar o sagrado do chão, a Escuridão humana, em cujo ventre encontra-se a Luz.
O fato é que fomos, pouco a pouco, rejeitando a nossa humanidade, rotulando nossos ímpetos criativos mais primitivos de “pecado”, entediando as nossas retinas com clichês fantasiosos de Beleza e Felicidade.  Temos ânsia de Eternidade e vamos caminhando em frente, com passos apressados, ávidos pelos paraísos que se encontram sempre mais à frente. Nesse caminhar horizontal, vamos perdendo a vida, deixando pelo caminho a Seiva. Artificializando a Existência. É preciso verticalizar a caminhada e conhecer as nossas profundezas.  É preciso vivenciar a plenitude das coisas ínfimas; encontrar a diversidade de paraísos terrenos; encarar “a ferida que não cicatriza nunca” de uma nova forma, com um olhar metafórico, que encontrará uma infinidade de sentidos – com os matizes claros e escuros – para toda e qualquer experiência vivida.
O que vivenciei no processo de formação em Arteterapia legitima a minha ficção pessoal, a minha metáfora íntima de borboleta polinizadora.  Havia pólen no olhar de quem me ensinou a amar a Arteterapia. Meu mundo largou-se, coloriu-se, abriu espaço para a Beleza. Usando uma expressão hillmaniana, fui reaprendendo a “fazer alma”.  E hoje compreendo que o papel da Imaginação é fundamental em toda terapêutica.  Muito mais do que antes, também compreendo que é preciso ir além da realidade para encontrar o Real.  Já não quero ver, apenas; quero “transver” – desejo despertado pelo inesquecível poeta Manoel de Barros: “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê”. Só através da Imaginação o homem pode lançar-se a uma nova dimensão da vida, deixando para trás o ordinário e conectando-se com a alma das coisas.
Tudo isso me faz lembrar do tão falado “terceiro olho”, pelos esotéricos, por algumas correntes espiritualistas, uma e outra religião.  Consta que o terceiro olho é a origem da intuição e corresponde a uma possível glândula entre os nossos olhos humanos, visíveis.  Existem, entre eles, inúmeros exercícios para desenvolver esse olho oculto, a intuição. Pois eu creio que não há exercício melhor do que o ato imaginativo para desenvolvermos não somente a capacidade intuitiva, mas também para curarmos os nossos olhos, desliteralizar a percepção, transformando-a em Imaginação.  A Poesia como olhar – não meramente como gênero literário – é a única saída que nós, a Humanidade, podemos ter.

Nossas imagens pessoais foram adulteradas, falsificadas, pela literalização da existência. A herança cartesiana teve força suficiente para literalizar até mesmo os símbolos.  E só podemos reverter o embotamento, a cegueira dos homens para a alma das coisas, se nos dermos conta de que apenas enxergamos, já não vemos. Ou apenas vemos, quando é preciso transver. Evocando Clarice Lispector, poderíamos dizer que as linhas cartesianas esmagaram as entrelinhas, onde mora a Alma.  E mais uma vez chamando em meu socorro o poeta Manoel de Barros, um alerta: "As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis. Elas desejam ser olhadas de azul.”   E nós podemos, sim, enxergar o divino azul humano aqui na Terra. 

29 de jul. de 2014

Arteterapia: saber para melhor sentir...



Arte:  Diane Shenandoah


“Quero saber para melhor sentir e sentir para melhor saber.”
(Paul Cézanne)


Sempre há alguém perguntando o que é, mesmo, Arteterapia. Sempre, o equívoco de que a expressão artística por si só seja a mola propulsora da Arteterapia. Não, não é. Se assim fosse, bastaria criar. Criar é muito e transforma. Mas a Arte, na Arteterapia, é mediadora. Através dela, podemos nos relacionar com o universo íntimo, singular, de cada paciente. Há quem prefira falar “cliente” – eu não gosto. Mas também não me sinto confortável em utilizar a expressão “paciente”. Mas, em falta de um nome ideal, chamemos de “paciente” aquele que se submete à terapia que tem a Arte mediando, fazendo a ponte entre o mundo consciente e a dimensão inconsciente da psique. Pois então: a Arte é mediadora. É importante conhecermos diversas modalidades artísticas; e, na formação, experimentamos muitas delas. Outra dúvida que sempre surge é quanto à necessidade de o arteterapeuta ser um artista, ter uma formação anterior ligada às artes. Não, não é preciso. Se assim fosse, todo artista, toda pessoa formada em Artes seria um bom arteterapeuta. A Arteterapia une Arte e Psicologia. E essa é uma união que não pode se dar de forma artificial e forçada.
A Arteterapia precisa de uma base teórica. A relação do paciente com sua criação se dá de forma espontânea, através de sua observação, sua percepção, seus sentimentos e insights. O arteterapeuta precisa de uma ou mais linhas de pensamento teórico que o conduza. Por isso existem várias abordagens na Arteterapia: Arteterapia com abordagem junguiana; Arteterapia gestáltica; Arteterapia transpessoal, e por aí vai. Cabe ressaltar, desse modo, que é imprescindível que uma ou mais correntes psicológicas sejam condutoras nessa modalidade terapêutica. Não cabem invencionices, como estamos vendo acontecer a todo instante, chegando ao absurdo de existirem pessoas autodenominando-se “arteterapeutas” e anunciando atendimento a distância, sugerindo que se envie desenhos, pinturas, enfim, algo que em nada condiz com a Arteterapia séria, que não prescinde da observação de todo o processo criativo, e não apenas o resultado final, sem falar em todos os estágios necessários para o conhecimento do paciente e a criação de vínculos.
O arteterapeuta, como todo profissional que atua nas áreas psicoterapêuticas, precisa estudar constantemente e conhecer os novos caminhos apontados pela Psicologia. Se assim não for, estarão estagnados, apenas repetindo fórmulas e desvirtuando a essência de um trabalho que necessita, sempre, de Alma. O conhecimento da História das Arte e de todos os movimentos artísticos ao longo dos tempos é bem-vindo, porém não é essencial. Pouco importa se a criação do paciente tende para esse ou aquele estilo; o que conta, de fato, é a forma como podemos “escutar” o que ele – o paciente – diz através de sua elaboração artística, através de seu processo de criar, através de sua fala, seu olhar, suas emoções. Não raramente, um arteterapeuta é solicitado por algum conhecido ou amigo a “interpretar” o desenho de um filho, uma pintura, uma criação artística. Isso não existe, precisamos informar. Primeiro, porque – acredito eu – não é trabalho de um arteterapeuta “interpretar” nada. Cabe ao profissional acompanhar cada passo no fazer artístico, cada expressão do paciente, dificuldades, observações, associações, e intervir, com base também nos conhecimentos teóricos, mas sobretudo com Alma, intuição, ajudando o paciente a revelar-se a si mesmo, tendo a Arte como mediadora. Embora aprendamos técnicas diversas, não podemos ignorar que cada paciente é um universo, cada momento solicita de nós percepção, flexibilidade, intuição para alcançarmos mais um degrau em direção à dimensão desconhecida daqueles que nos procuram.
Na abertura do meu trabalho arteterapêutico, costumo utilizar a Poesia sempre – uma modalidade artística ainda pouco explorada na Arteterapia –, como uma forma de sensibilização para a entrada numa dimensão metafórica. A partir daí, seguimos com reflexões do paciente, fazendo ponte entre o que leu e sentiu e o seu mundo, seus sentimentos, suas vivências. Num momento posterior, trabalhamos uma modalidade artística que amplie as questões emergentes e caminhamos no sentido de elaborações e revelações através da criação. Os resultados são surpreendentes e, ao longo das sessões, não raro os próprios pacientes encontram pontos de interseção entre trabalhos realizados anteriormente.

O importante é que deixemos claro que Arteterapia não é simplesmente “fazer arte”. Tampouco  é “interpretar” desenhos, esculturas, pinturas etc. A linguagem artística em muito se assemelha aos sonhos. Temos diante de nós algo que fala por si só, trabalhos cujo entendimento passa pelo “sentir”. Sim, é preciso que o Arteterapeuta beba em várias fontes. É preciso “saber”. Mas, saber para “sentir”. Paul Cézanne, considerado o fundador da arte moderna, registrou: “Quero saber para melhor sentir e sentir para melhor saber.” Eu diria: Quero saber para melhor sentir e sentir para melhor saber, e saber para melhor sentir...numa relação incessante entre a mente e o coração que possa, o tempo todo, vivificar a Alma.  

26 de jun. de 2014

Amor não é patologia








Sempre me achei uma pessoa sensível. Cheia de paradoxos, mas sensível. As dores que vinham do mundo para a minha alma, doíam. Doeram sempre. Muito. Ainda doem. Ascendente em peixes, aqueles que no zodíaco morrem com o outro. Isso explica parte da sensibilidade, não toda. Astrologia não é acadêmica, portanto isso tem pouco valor pra você – acadêmico, mestre, doutor. Não constou dos vossos currículos e cheira a misticismo. Já pensei assim também. Mas fui pesquisar. Tive uma postura “científica”, como sempre tenho; mas estou aprendendo a usar e a confiar na minha via intuitiva. Bem, mas fui pesquisar a astrologia depois de ganhar um presente forçado, do qual não pude declinar: uma então amiga astróloga ofereceu-me o meu mapa natal de presente de aniversário. Esquivei-me o quanto pude, mas não pude prolongar muito os meus dribles. Fui fazer o tal mapa. Ok, isso não é “acadêmico”, mas – embora o mapa tenha sido interpretado por uma pessoa com limitações na sua função, porque há “astrólogos” e “astrólogos” – surpreendi-me com o resultado e obtive respostas que nenhuma terapia, nenhuma análise, nenhum médico, nenhum tratado de magia, nenhum pai-se-santo, nenhuma cigana me responderam. Porque gosto de ler sobre tudo, experimentar, verificar de perto. E busquei muitos caminhos, em vão.

Óbvio que fui buscar livros de astrologia pra ler. Tentei chegar o mais próximo que pude da astrologia antiga, ainda pura, ainda ciência. Pouco se encontra a esse respeito que possa ser levado a sério. Mas fui. Fiz analogias. Entendi que todo nascimento, inevitavelmente, ocorre em sintonia com o Cosmos. Que refletimos aspectos do cenário cósmico. Ok, isso não é “acadêmico”, mas eu jamais limitarei meu saber somente à academia. Gosto de ouvir versões antigas. Gosto de querer encontrar o começo das coisas. Gosto muito de acreditar que todos os saberes igualam-se em valor; sejam eles acadêmicos, sejam populares.
Mas não era nada disso que eu ia falar. Ia falar sobre bichos, como gatos e cachorros. Sempre respeitei os cachorros, os gatos. Sempre me despertaram ternura. Mas nunca me envolvi intimamente com nenhum deles. Isso foi acontecendo aos poucos. Cachorros de sobrinho pra cá, gatos de irmã pra lá, cachorros de amigos acolá, até aparecer Bianca, gata de rua alimentada por minha irmã , que chegou, pariu, ficou. Operada, não tem mais cio, virou um grande bebê. E fui convivendo com ela, observando, aprendendo. O gato sempre me atraiu pela sua independência. Mas Bianca ensinou que eles amam, eles fazem carinho e também, como o cachorro, afeiçoam-se aos seus donos-pais de uma forma muito bonita. Encantei-me e encanto-me com ela. Toquei nesse tema para trazer à reflexão o sentimento de amor pelos animais. Tem crescido bastante o número de pessoas que adotam animais e se apaixonam por eles. Tem aumentado em número as vozes que dizem amar mais aos animais do que aos seres humanos. Muitos ainda consideram esse amor uma patologia séria e não admitem, simplesmente, que se ame mais a um ser de um reino dito “inferior”.  Eu sou da linha dos que acreditam que não há reino “superior”; há reinos diferentes, mais complexos, mas desenvolvidos, mas nunca “superior”. Para as pessoas que se acham mais sensíveis, evoluídas porque não comem carne, eu sempre questiono por que comem vegetais. Porque acredito que o reino vegetal também precisa de amor. Enfim, não há reinos inferiores.
Como eu falei antes, cresce o número de pessoas que sofrem mais com a morte de seu cão ou seu gato do que com a morte de uma pessoa amiga. Às vezes até parentes. E dizem que isso é patologia, não é. Eu amadureci, criei laços mais íntimos com os animais domésticos – falo do cão e do gato, porque já fui íntima de galinhas, porcos, patos... –, e hoje, mais do que antes, compreendo perfeitamente a escolha desse objeto amoroso de quatro pés, que são os mais adotados. Não, não é patologia amar. Não importa a quem ou ao quê se ame. O mundo, cada vez mais, é habitado por seres humanos que desconhecem o amor. Que veem no amor  barganha,  conveniência,  projeções midiáticas de beleza e poder, ou o toma-lá-dá-cá... E os gatos e os cães incondicionalmente amam. E inevitavelmente são amados. A pureza do amor emitida pela luz do olhar de um cão é comovente e sensibiliza e emociona muito. Amar um ser assim mais do que se ama um amigo ou parente não é patológico.
Estou pensando em, assim que puder, adotar um filhote de gato, já que de onça, como eu gostaria, não é possível. Tenho amado e me se sensibilizado mais os animais. E percebendo como somos prepotentes em achar que somos superiores, que merecemos mais o amor do que os bichos!
Bom lembrar que a Dra. Nise da Silveira utilizava a presença de gatos junto a seus pacientes psiquiátricos, esquizofrênicos, e que muitos reagiam positivamente, interagiam com os gatos, embora não o pudessem ou não o quisessem fazer com os humanos. Não conheço bem a explicação “científica” para isso. Mas “sinto”, “intuo” que os “loucos” sentem a emanação da energia amorosa dos bichos, dos gatos. Como sentem também a agressividade de autodefesa. Eles sentem a essência do bicho, sentem, inconscientemente, ou nem tão inconsciente assim, que podem confiar. Que podem amar. Que são, incondicionalmente, amados.
Não, amar mais os animais do que as pessoas não pode, de um modo geral, ser encarado como patologia. Quem convive com animais sabe o que é ser amado por bicho. E não há como não retribuir esse amor amando profundamente. Amor não é patológico. Amor, amor, não!




8 de jun. de 2014

Palavras sem Alma


Imagem web (autoria desconhecida)


Sim, dei para duvidar das minhas convicções. De repente, tudo que não ofereça espaço para a dúvida parece-me suspeito. Quanto mais sólida a certeza, maior o abismo que me esperará adiante – dei pra pensar. Esse é um estado ao qual não sei denominar, mas o sinto como fonte fundamental de vitalidade em momentos cíclicos de minha vida. Por mais que insistamos em afirmar que não perdemos a destreza, não enferrujamos com os movimentos mecânicos, o pensamento linear, a rigidez da lógica cartesiana, nossa linguagem desmascara-nos para nós mesmos, se tivermos a disponibilidade de observá-la. Tem faltado Alma à linguagem acadêmica, científica. Isso me cansa, confesso. Desvitaliza-me se, ciclicamente, eu não me deixar arrastar pela torrente das dúvidas, vagar pelas vielas movediças, erguer um altar temporário para o deus das incertezas. Até que alguma salvação miraculosa traga-me de volta ao “porto seguro” das Verdades Comprovadas – a ilusão oficial que exige a sua quota de atenção.
Passo fases mergulhada nas leituras, anotando referências, confrontando teorias, refletindo, “enrijecendo” os músculos da Imaginação. Depois caio em Devaneios. Açoito as margens das águas enfurecidas. Encho-me de amplitudes e me perco. Ouvindo a voz do meu eco a bradar: “Tem alguém aí?...Alguém me escuta?”. Não, não me escutam. Habito, provisoriamente, o Grande Deserto. Avanço para o clarão sedutor do Nada. Até me chocar com a tábua de salvação que me protege de um território desconhecido, de onde poucos voltam. 
Há, contudo, nesses ciclos aparentes, um movimento em espiral. Nunca volto ao mesmo ponto de onde havia partido. Algo vai acontecendo, e mais uma vez não sei denominar. Tenho brigado cada vez mais com as palavras. Elas chegam simulando ondulação e fendas. Propagando traiçoeiramente uma nova ordem. Como vinho barato, trazem uma embriaguez presunçosa de amanheceres nublados. Fazem as batidas do coração tornarem-se fracas. As palavras sem Alma corrompem a nossa língua secreta. Persuadem-nos pela asfixia.
Salva-nos a Arte, quando nos deixamos tocar por ela. Salva-nos a Poesia em suas diversas roupagens: as letras ébrias a dançar uma dança que inclui atavismos e silêncios. Salva-nos as tintas engendrando mundos inimagináveis. O barro, modelando seres pelas nossas mãos tantas vezes rijas. O Delírio, que é concebido no ventre da Dúvida, e respira por brechas. Salva-nos a Insensatez e a Transgressão. A insanidade do verbo, como teria dito o poeta Manoel de Barros.
Desconfio de que, intimamente, estou em franco processo de desaprendizagem. Se isso for uma ilusão, é uma ilusão que me acalma. Não é fácil desaprender. Por mais evidências de rejuvenescimento que o morrer constante proporcione aos que cobiçam a juventude eterna, muito poucos se dispõem a velar seus defuntos íntimos. Só os deuses sabem quantas vezes já velei a mim própria: ora contrita, em silêncio nebuloso; ora, embriagada pelo perfume da Morte. Contudo, o Despertar recorrente não levanta o véu que esconde a matriz do Mistério.  Às vezes pressinto que a Eternidade, o Infinito, é só o cansaço de braços que desafiaram a correnteza. 
Outro sintoma da desaprendizagem parece ser o Esquecimento. Não um esquecimento qualquer, mas aquele que nos coloca em vertigem constante. Uma específica perda de memória obriga-nos, em alguns momentos, a lançar mão de alguma espécie de conhecimento que não se apaga nunca. Sim, não há denominação, terminologias, não nos adianta buscar o socorro nas palavras: elas não vêm. E, no entanto, não somos simples desmemoriados. Não lembramos, mas sabemos. Simplesmente.
Afinal, não sei bem do que queria falar. Talvez da ausência de Alma nas palavras. Não basta que elas traduzam o rigor de um mundo medido, contado, referenciado, comparado, evocando, com ardil, uma isenção sedativa, uma paisagem sem os abismos atávicos que nos impulsionam a ir, verdadeiramente, além do previsível. Os Verbos necessitam de Alma. Pensando bem, acredito mesmo que uma outra lógica nos mantém VIVOS – a lógica do imprevisível! 

7 de jun. de 2014

O garimpeiro tem que entender o cascalho





Hoje, segundo dia de encontro com as mulheres do Grupo Arteterapêutico “A Primeira Cor”, me lembrei do velho garimpeiro pai de Ju, lá da Chapada Diamantina.  Na nossa primeira conversa, em frente a minha cabaninha no mato, onde eu passava uns dias, ele narrou suas aventuras de garimpeiro, nos tempos em que não era proibido remover os cascalhos em busca do diamante que mudaria vidas. Não questionei em nenhum momento o que era verdade, o que era crendice, o que era aumento – pela imaginação –  da realidade vivenciada pelo ex-garimpeiro.  Ouvi com atenção cada palavra, e vi nos olhos do homem um brilho de diamante que quase faiscava.
 – O diamante tem vontade, moça; ele não se mostra pra qualquer um não – afiançava-me o pai de Ju.  Segundo contou, o diamante é que escolhia o garimpeiro, com base em critérios de uma alma mineral que eu tentava compreender.  Seus relatos pareciam transportá-lo para o passado, seu olhar se perdia, enquanto a voz prosseguia nos ensinamentos de uma ciência nativa que muito me interessava. Os gestos vinham-lhe em momentos fugidios, que lhe traziam de volta a um presente sem o esplendor da pedra cobiçada.
Inicialmente, não soube por que associei o processo terapêutico às narrativas do homem que há anos não vejo. Só aos poucos fui me dando conta, à medida que recordava as suas palavras. “Moça, quando o diamante tá por perto, a gente sabe, viu? Ele pode até não se mostrar, se ele não quiser, mas a gente sabe que ele está olhando a gente logo ali, em algum lugar. Às vezes tá na cara, mas ele cega a gente, porque vai escolher outro garimpeiro”. Eu ouvia encantada sobre a ciência daquele homem, que, àquela altura, me parecia um sábio, ainda que nem soubesse escrever o próprio nome.  O diamante já não era tão-somente uma pedra, agora: era uma entidade! E prossegui ouvindo.
O homem caminhou em direção a algum lugar do riozinho que passa atrás do terreno, agachou-se, sequioso, e fechou na mão um punhado de pedras que nem de longe lembravam o diamante. Veio em minha direção, esticou a mão e, enfim, explicou: “Tá vendo essas pedrinhas, moça? Olha bem: tá vendo? Sabe que pedras são essas?”. Olhei as pedras buscando alguma espécie de brilho encoberto, soterrado, mas nada vi. “Não, não sei...”, respondi, já me sentindo uma ignorante completa em relação ao mundo das pedras. Ah, o que diria o homem? Aquilo seriam diamantes disfarçados? As pedras saberiam disfarçar-se também? Não, isso já era demais. Mas o ex-garimpeiro não me deixou apreensiva por muito tempo. Acariciava as pedras ao mesmo tempo em que explicava: “Quando a gente encontra essas pedrinhas, é sinal de que o diamante está por perto, moça. Olha bem como elas são. A senhora não dá nada por elas, né? Pois então: quando elas aparecem, pode ter certeza de que tem diamante bem perto. No seu terreno tem diamante, viu? No dia em que ele quiser se mostrar...se ele quiser se mostrar pra senhora, ah...a senhora vai tomar um susto! Porque ele brilha, viu, moça? A senhora conhece diamante?”.  Santo deus, aquele homem não tinha ideia da loucura que estava fazendo comigo naquela hora. Não sabia que todos os cacos de vidro e pingos d’água sob o efeito da luz solar estavam fadados a serem diamantes, sob o meu olhar embriagado por natureza.
Fiquei muito interessada naquela ciência nativa de garimpeiro nostálgico. Por algumas semanas, tudo o que reluzia... era diamante. Não estava interessada no valor da pedra, nos ganhos materiais que ela poderia proporcionar-me.  Tudo o que a minha fantasia criava resumia-se em “ser escolhida pela pedra”. Aí estava a magia, o encanto. Mas nunca encontrei nada além de diamantes imaginários, projetados em qualquer brilho momentâneo do sol sobre a areia molhada da margem do rio. Até o dia em que me lembrei de uma frase do velho e nostálgico garimpeiro: “O garimpeiro tem que entender o cascalho, moça!”. Não, eu ainda não entendia.  E recordei de mais um ensinamento daquele mestre ocasional: “Moça, diamante cobiçado ‘queima’, pode ter certeza”. “Queimar” significa, no jargão garimpeiro, “voltar para o leito do rio”. Não, não: eu não queria cobiçar diamantes.  Esqueci-me do homem, das pedras sinalizadoras, dos diamantes. Até hoje, quando ele me veio à mente de repente.

E então recordei-me do velho garimpeiro. Ouvindo cada mulher do grupo terapêutico, identificando auto-enganos, sentindo cada mensagem contida na arte expressa, escutei o sussurro das suas próprias almas e da minha também, lembrei-me das pedras que nos levam ao brilho límpido do diamante. Dessa vez era diferente.  Não haveria perigo de queimaduras. Os diamantes não voltariam ao leito do rio. Eu não tinha pressa. Experimentava o prazer de tocar cada pedrinha aparentemente insignificante. Sentia sua textura. Seu brilho latente. Enternecia-me a aspereza das pedras, o brilho fugaz e artificial com que se mostravam, sabendo-se, de algum modo, diamantes. Mas eu sabia. Agora eu realmente já sabia. Os diamantes não “queimariam”, porque eu não os cobiçava. Esperaria. Os diamantes nos escolhem. Mas nós, de alguma maneira, já os enxergamos pelas pedras do caminho.  E, como bons garimpeiros, guardamos cada uma que recolhemos. Também são preciosas  para quem nasceu com o garimpo como destino.