Gente que inspira

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12 de ago. de 2013

Sonhar com as Mãos







Arte: Kalliope Amorphous



As mãos sonham. Este foi o primeiro insight que a Arteterapia me trouxe, quando ainda nem compreendia completamente os benefícios da nova abordagem terapêutica, sendo eu uma peregrina fatigada dos caminhos já um tanto enfadonhos das palavras. Não que a palavra em si não tenha o seu brilho, não se rompa em fagulhas que acabem por fazer arder a alma. A palavra é centelha que pode transformar noite em dia, angústia em êxtase. Pode trazer luz e revelar sombras ávidas por uma vida real. Mas não qualquer palavra, eis a verdade.

O filósofo Gaston Bachelard, em A Poética do Devaneio, chama a atenção para as palavras que perderam seu onirismo interno. E sugere uma pesquisa sobre os nomes que ainda sonham, os nomes “que são filhos da noite”. Quais seriam as palavras que ainda sonham, o verbo que delira, como teima em desejar o poeta mato-grossense Manoel de Barros? E o que tem a palavra a ver com o sonhar, com as mãos embriagadas de escuridão, enxergando apenas pela luz da intuição, vivenciando o devaneio diurno de que nos fala Bachelard?

A oficina Sonhar com as Mãos veio nascendo, pouco a pouco, desde o primeiro impacto provocado pela Arteterapia, e se desenvolvendo, enquanto projeto, a partir de reflexões de textos junguianos, pós-junguianos, da filosofia poética de Bachelard e das vivências da vida real, a escola da vida, que nos traz um saber indiscutivelmente precioso. A primeira oficina, que acontecerá no dia 5 de outubro, ainda não foca as palavras que sonham, não tem a finalidade de ir ao encontro das palavras noturnas, do verbo enlouquecido. Poderíamos dizer que ela é a primeira etapa de um processo que se desenrolará no seu ritmo próprio e tem como um dos objetivos trabalhar a não-palavra, a comunicação que se dá sem o verbo, a confiança de que é possível sonhar com as mãos.

Mais que uma oficina, o Sonhar com as Mãos é uma aventura. É uma proposta de devaneio diurno. Não conceituaremos os sonhos.  Não os definiremos. Ao contrário disso, vivenciaremos os sonhos, buscando, tanto quanto possível, nos aproximar da fronteira que divide esses dois universos: o diurno e o noturno. Entraremos no Reino da não-palavra. Nós nos colocaremos em estado de alma nascente. A imaginação é capaz de nos fazer criar o que ainda não foi concebido. E o “sem-nome” haverá de se impregnar de onirismo, que se recobrirá da palavra virgem, fruto da imaginação.

Mas sentiremos a dor do animal ferido, o animal esquecido no fundo do homem. O animal que precisa encontrar o seu som, a voz da sua dor, a carícia da mão humana sobre seu próprio ser esquecido, ferido, esperando a hora do grito e da canção. E com as mãos, criaremos aquilo que ainda não foi dito, que não pôde ser proferido, porque não cabia na linguagem dos homens.

Sonhar com as Mãos é uma aventura profunda em busca da imaginação criadora. O primeiro passo para o encontro com as palavras que sonham. A ambiência de sonho nos proporcionará o encontro com o território onde será possível conhecer os sonhos...sonhando! Sonhemos juntos!

20 de mai. de 2013

A roupa da sombra








não
ele não sabe
que é a sombra
quem constrói
sua própria roupa.

sou roupa
da sombra
com matizes
contrastados.

sou sobra
da vida real
filha parda
da escuridão.

meu ser desnudo
não conhece a oposição
a dor não compensa
a pele é um manto cósmico
que abriga alienígenas.

sim, mas ele
ignora que
é reflexo externo
das trevas profundas.

os trinta tons
de verde
que brotam
das profundezas
da terra
se arvoram
em ser criadores
embora criados
pela esperança
de um abismo
cósmico.

18 de mai. de 2013

"...Me ajude a ser feliz"









(Essa crônica de Rubem Alves tem relação profunda com o post anterior, por isso resolvi postá-la; ao mesmo tempo, implicitamente, considerando o post anterior, verificamos como a Arteterapia pode ajudar a modificar esse panorama).



Estou com medo de que as crianças me chamem de mentiroso. Pois eu disse que o negócio dos professores é ensinar a felicidade. Acontece que eu não conheço nenhuma criança que concorde com isto. Se elas já tivessem aprendido as lições da política, me acusariam de porta voz da classe dominante. Pois, como todos sabem, mas ninguém tem coragem de dizer, toda escola tem uma classe dominante e uma classe dominada: a primeira, formada por professores e administradores, e que detém o monopólio do saber, e a segunda, formada pelos alunos, que detém o monopólio da ignorância, e que deve submeter o seu comportamento e o seu pensamento aos seus superiores, se desejam passar de ano.


Basta contemplar os olhos amedrontados das crianças e os seus rostos cheios de ansiedade para compreender que a escola lhes traz sofrimento. O meu palpite é que, se se fizer uma pesquisa entre as crianças e os adolescentes sobre as suas experiências de alegria na escola, eles terão muito que falar sobre a amizade e o companheirismo entre eles, mas pouquíssimas serão as referências à alegria de estudar, compreender e aprender.

A classe dominante argumentará que o testemunho dos alunos não deve ser levado em consideração. Eles não sabem, ainda… Quem sabe são os professores e os administradores.
 
Acontece que as crianças não estão sozinhas neste julgamento. Eu mesmo só me lembro com alegria de dois professores dos meus tempos de grupo, ginásio e científico. A primeira, uma gorda e maternal senhora, professora do curso de admissão, tratava-nos a todos como filhos. Com ela era como se todos fôssemos uma grande família. O outro, professor de Literatura, foi a primeira pessoa a me introduzir nas delícias da leitura. Ele falava sobre os grandes clássicos com tal amor que deles nunca pude me esquecer. Quanto aos outros, a minha impressão era a de que nos consideravam como inimigos a serem confundidos e torturados por um saber cujas finalidade e utilidade nunca se deram ao trabalho de nos explicar. Compreende-se, portanto, que entre as nossas maiores alegrias estava a notícia de que o professor estava doente e não poderia dar a aula. E até mesmo uma dor de barriga ou um resfriado era motivo de alegria, quando a doença nos dava uma desculpa aceitável para não ir à escola.

Não me espanto, portanto, que tenha aprendido tão pouco na escola. O que aprendi foi fora dela e contra ela. Jorge Luís Borges passou por experiência semelhante. Declarou que estudou a vida inteira, menos nos anos em que esteve na escola. Era, de fato, difícil amar as disciplinas representadas por rostos e vozes que não queriam ser amados.

(...)

Os métodos clássicos de tortura escolar como a palmatória e a vara já foram abolidos. Mas poderá haver sofrimento maior para uma criança ou um adolescente que ser forçado a mover-se numa floresta de informações que ele não consegue compreender, e que nenhuma relação parecem ter com sua vida?
Compreende-se que, com o passar do tempo a inteligência se encolha por medo e horror diante dos desafios intelectuais., e que o aluno passe a se considerar como um burro. Quando a verdade é outra: a sua inteligência foi intimidada pelos professores e, por isto, ficou paralisada.

Os técnicos em educação desenvolveram métodos de avaliar a aprendizagem e, a partir dos seus resultados, classificam os alunos. Mas ninguém jamais pensou em avaliar a alegria dos estudantes – mesmo porque não há métodos objetivos para tal. Porque a alegria é uma condição interior, uma experiência de riqueza e de liberdade de pensamentos e sentimentos. A educação, fascinada pelo conhecimento do mundo, esqueceu-se de que sua vocação é despertar o potencial único que jaz adormecido em cada estudante. Daí o paradoxo com que sempre nos defrontamos: quanto maior o conhecimento, menor a sabedoria. T. S. Eliot fazia esta terrível pergunta, que deveria ser motivo de meditação para todos os professores: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?”

Vai aqui este pedido aos professores, pedido de alguém que sofre ao ver o rosto aflito das crianças, dos adolescentes: lembrem-se de que vocês são pastores da alegria, e que a sua responsabilidade primeira é definida por um rosto que lhes faz um pedido: “Por favor, me ajude a ser feliz…”

16 de mai. de 2013

Arteterapia e TDAH: medicamentos ou arte?







Leio, inúmeras vezes – assim como ouço – que o tal “Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é neurobiológico, de causas genéricas, que aparece na infância. Eu não acredito nisso. Não há quem me convença que, de repente, vivamos uma era onde tantas crianças e adolescentes sofram de males que no passado nem se ouvia falar. Também acho, no mínimo, sintomático, que todas as associações que defendem a existência desses distúrbios sejam mantidas por laboratórios farmacêuticos. Pergunto-me se a existência dessa relação, com o interesse de vender remédios, pode ser confiável, e se esses pretensos diagnósticos estão sendo feitos, de fato, para melhorar as crianças e adolescentes.

Uma fala constante dos especialistas da área psicopedagógica, quando os pais, em desespero, procuram os profissionais para descobrir a causa do baixo rendimento escolar de seus filhos e o desinteresse pelas atividades escolares: “O problema está no sistema; mas como não podemos mudar o sistema, trabalhamos para adaptar o aluno a ele”. Essa expressão que menciona a “adaptação” não passaria de um eufemismo? Adaptar o aluno ao sistema não seria o mesmo que mutilá-lo, aniquilar sua espontaneidade expressiva, sua capacidade criativa, sua sin-gu-la-ri-da-de? Não sei...

É fato que a qualidade de ensino no Brasil é péssima. Fato também que a educação veicula, inconscientemente, por parte dos simples professores, a ideologia do capitalismo, que trabalha na direção da padronização. Pressupõe que todos os indivíduos são iguais, ou que devam ser iguais. E aqueles que fogem dos padrões são imediatamente rotulados, passam a ter que viver com o estigma de um transtorno inventado, na maioria dos casos.

E a grande vedete do momento para esses males fabricados por conveniências diversas, e que tem por trás a indústria medicamentosa, é a Ritalina, medicamento cujos efeitos têm sido comparados, por especialistas, como o da cocaína. Eu fico me perguntando se é justo que peguemos uma criança que não tem interesse pelo ensino, num modelo ultrapassado ou voltado apenas para a questão do vestibular, que não tenha uma educação que inclua a ludicidade e que não considere as singularidades de cada um, tenha que tomar a tal da Ritalina, com efeitos, segundo alguns especialistas, parecidos com o da cocaína. Sem dúvida, o medicamento o deixará funcional (às vezes robotizado), mas certamente não despertará um interesse real pelo que está estudando e continuará a perceber que a pedagogia e os interesses curriculares não o alcançam, não encontram pontos de ressonância dentro deles.

Nem vou falar de relatos de mães que declaram que seus filhos, depois da utilização da Ritalina, perderam o ânimo para brincar, jogar, criar. Vou falar do sistema simbólico e imaginário de cada aluno que é único e que não podemos generalizar as situações. Falarei que, se o erro está no sistema, não podemos achar que um medicamento que promove tantos males seja a solução dos problemas, porque na verdade o desespero e a falta de criticidade de pais e educadores têm evitado uma reflexão mais séria sobre o assunto.

Acontece que reduziram a dimensão humana a uma dimensão orgânica e biológica, e somos muito mais que isso: temos cultura, sociedade, psiquismo, ou seja, várias dimensões que constituem a humanidade. A volta das explicações organicistas, somada ao desenvolvimento de medicamentos na área da psiquiatria e à ideia de que as pessoas que não conseguem fazer determinadas coisas possuem algum tipo de transtorno, chegou à educação. Não é concebível imaginar que uma criança que vai tomar Ritalina porque tem dificuldade de atenção na escola vai conseguir se interessar pelo que não se interessava antes. Isso é um absurdo.

Uma criança considerada hiperativa está a reclamar mais movimento, mais agilidade, está mostrando que o seu ritmo não condiz com o ritmo da escola, da aprendizagem. Ela solicita, com todo direito, mais. Da mesma forma, uma criança que é diagnosticada como tendo Déficit de Atenção está passando a mensagem de que aquilo que estão dizendo não a interessa, não está sendo passado de forma interessante, e, que, portanto, não há déficit nenhum, apenas um desinteresse plenamente justificado.

Subliminarmente, estamos passando para as crianças a mensagem de que o mundo está todo em ordem, o sistema é perfeito, mas elas (as crianças) é que têm problemas. Além da deslavada mentira que estamos, de alguma forma, passando para as crianças, a possibilidade de baixa auto-estima passa a ser grande. Consciente ou inconscientemente, estamos gravando nas crianças a incapacidade de enfrentar desafios sozinhas, estamos abolindo a ludicidade na vida de crianças e adolescentes, ao cobrarmos, indiretamente, que elas respondam às expectativas do sistema, mesmo que para isso elas tenham mutilado o seu verdadeiro potencial criativo. E não creio que nenhum pai ou mãe desejem que seus filhos, futuramente, tenham um diploma, mas já não saibam de si próprios, já não saibam ser críticos, inovadores, revolucionários. E é isso que acontecerá se não pararmos para dar a este tema a atenção devida.

É quase um crime uma criança crescer acreditando que é uma droga que irá ajudá-la a viver, a se relacionar, a responder aos desafios da vida. E como um remédio que tem anfetamina, ou seja, que tem a mesma origem que a cocaína, com efeitos colaterais gravíssimos, pode ser algo que ajude essa criança a melhorar sua vida?

Estudos em todo o mundo comprovam que a Ritalina funciona no cérebro igualzinho à cocaína. E agora? Quem é mesmo seu filho? Quais são as reais potencialidades dele que não são e não serão desenvolvidas através de medicamentos? E onde entra a Arteterapia nisso tudo?

Eu acredito que a Arteterapia pode, nesse momento de confusão para pais e educadores – que respondem submissamente ao sistema – ajudar a desenvolver os potenciais criativos dessas crianças e adolescentes estigmatizadas por fugirem ao padrão exigido pelo sistema. A Arteterapia é uma abordagem que, essencialmente, singulariza cada ser. Para a Arteterapia não deverá haver “hiperativos” ou pessoas com “déficit de atenção”. Haverá sim, pessoas que imprimirão seu próprio ritmo, pessoas que focarão naquilo que lhes é interessante, que contribua para suas autodescobertas, para o desenvolvimento de suas potencialidades. A Arte em si já liberta dos estigmas aqueles que a sociedade rotula por incompetência de olhar com a singularidade devida. Além disso, a abordagem arteterapêutica ajuda a recuperar a dimensão criadora do ser, com todas as suas peculiaridades, diferenças, cores, tons, sons.

Alunos que vão mal em Redação – por mais que decorem a estrutura, por mais que tenham aulas extras – , de repente descobrem que a educação que tiveram amputou sua veia criativa, trancafiou em algum lugar sua imaginação. E, ao recuperarem, sentem-se aptos a escrever, criar, criticar e reivindicar o seu direito de serem diferentes. Porque é pela diferença que sofrem. É pelos caminhos singulares de aprendizado que são rotulados, robotizados e medicados. É inadmissível que a Arte esteja sendo tratada nas escolas como a matemática, exigindo dos alunos que a criação corresponda às expectativas dos professores, sem que a expressividade do aluno seja considerada. Por vivência, por experiência própria, eu recomendaria a Arteterapia a todos os pais e alunos que vivenciam esse conflito que se constitui em ver o filho atendendo às expectativas do sistema ou ver-lhes felizes por ter se libertado de uma educação que é filha de um sistema padronizador e assassino. Um sistema que mutila.

Se cabe aos pedagogos ajustar o aluno ao sistema, de uma forma mais suave, aos Arteterapeutas cabe o papel de libertá-los, libertar sua dimensão simbólica única, sua singularidade.

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11 de mai. de 2013

A Arteterapia e a Grande Passagem







Fui solicitada a atender uma paciente terminal. A família pediu que esperasse apenas ela se fortalecer um pouco, mas nem houve tempo de conhecê-la: morreu alguns dias depois. Arteterapia para doentes terminais? Há, sim, quem estranhe. As terapias energéticas são mais compreendidas e aceitas em momentos como esse. Mas o estranhamento é comum quando se ouve sobre a Arteterapia caminhando junto com o processo da morte. Há os tanatólogos, profissionais preparados para lidar com a morte. Mas...arte? Sim, arte. Essa reflexão acompanhou-me desde o percurso da minha formação como arteterapeuta.

Na prática, há várias razões e explicações de como podemos utilizar a arteterapia com doentes terminais. Na experiência de vida, bem antes de eu conhecer a Arteterapia, uma angústia humana, talvez tola do ponto de vista material, mas importante, no aspecto emocional, já insinuava que a arte e a morte podem estabelecer uma relação bonita. A arte pode ser a ponte colorida que nos conduz ao grande Mistério.

Há anos, sofri da angústia de escolher um presente para o último Natal de meu pai. Dois meses e pouco depois ele morreria. O que dar de presente a quem parte para um mundo que não dá acesso ao material? Roupa, sapato, livros, aparelhos...nada disso entraria no novo mundo desconhecido. Foi quando pensei na música. Comprei o disco (ainda em vinil) de Plácido Domingo, que ele tanto gostava, e dei-lhe de presente. Mal recebeu, entrou no meu quarto e pôs o disco a tocar em volume altíssimo. Ouvimos os dois, emocionados, e logo a família já reclamava da altura. Foi a única vez que ele ouviu, junto comigo, e tive certeza que ele levou a música para  a sua alma. Ficou apenas o vinil mudo, pois nunca mais ouvi.

A morte, tal como o nascimento, é um momento delicado. Não saberia imaginar nenhum profissional que atue nessa área, lidando com a morte, sem a convicção de que a morte não é o fim. Para cuidar dos que estão partindo e dos seus familiares é necessário ter certeza de que o fim não existe. Estaremos sempre recomeçando, de algum modo e em algum lugar. E, ao cuidarmos do doente terminal, precisamos ter em mente – assim penso eu – que estamos envolvidos em dois processos ao mesmo tempo. Precisamos nos colocar nos dois lados: o de cá e o de lá. Precisamos, sobretudo, ter em mente que estamos, de alguma forma, ajudando a curar a alma de quem parte. Dissolver seus anseios, seus medos, suas culpas, suas frustrações. O alguém que morre é, em essência, o mesmo alguém que está renascendo noutro lugar. Penetrando uma outra dimensão, seja ela como for.

O arteterapeuta não só ouvirá o doente – representando ali tantas pessoas que passaram por sua vida –, mas proporá expressões artísticas que possam ajudar a fortalecer a voz interior daquele que parte. As metáforas da morte virão em cores e formas diversas. O medo se revelará e poderá, assim, ser dissipado. Considerando a singularidade de cada ser, de cada pessoa que se despede da vida, o profissional da Arteterapia pode propor uma modalidade de arte. Além da infinitude de mensagens que a criação do doente terminal registrará –  numa espécie de síntese de si mesmo e de sua vida, sua história – , no “fazer arte” está a magia de sintonizarmos com o nosso maior dom, a exemplo do “Criador”, que é o de criar. Isso atua positivamente sobre a psique do doente e, acredito, insinua ou aponta a transcendência, pela própria essência da arte.

A morte, como um grande rito de passagem que é, precisa, muitas vezes, de cores, de música, de poesia. Ocidentalmente, fomos educados para sofrer muito, seja pela fragilidade espiritual, apego excessivo ao material, descrença, medo, desconhecimento. Mas é necessário que, de algum modo, ressacralizemos a morte. Que aprendamos a participar desse evento com o coração aberto e amoroso, ajudando a conduzir, suavemente, o terminal ao seu novo mundo.

Ainda não atendi, terapeuticamente, um doente terminal, mas isso acontecerá mais cedo ou mais tarde, porque é, mais que um desejo, uma vocação. Mas lidei com a morte ainda no meu estágio supervisionado. A paciente sofrera a perda de dois filhos. A segunda perda, recente no momento em que comecei a atendê-la, deixou dores profundas e abafadas pela personalidade da paciente.  E, como qualquer profissional que cuida de gente, de almas, há momentos em que a intuição aponta o caminho, a saída. Senti que minha paciente sofria pelo fato de não ter visto o filho pouco antes de morrer, de não ter podido falar com ele, dizer-lhe coisas que nunca foram ditas. Reservei uma sessão inteira para fazermos uma espécie de rito de despedida. Ela pintou, tocou piano (era pianista), escreveu ao filho e disse-lhe aquilo que sentia vontade de dizer. Todo o processo foi acompanhado passo a passo, e a arte, além de revelar aspectos inconscientes da paciente, teve um efeito muito positivo, transformando-se no elemento principal no ritual de despedida.

De qualquer sorte, o “remédio” será sempre o mesmo no nascimento e na morte: o Amor. Se compreendermos que as nossas vibrações amorosas equilibradas ajudam e muito na caminhada da alma que parte, se entendermos que o Amor é uma energia que atravessa tempo e dimensões, que poderemos continuar amando e que o outro continuará a sentir o Amor, aí, sim, estaremos prontos para nos confrontarmos com a morte.



7 de mai. de 2013

A Imaginação é a respiração da alma









"Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade não falo porque eu mesma não posso."

 (Clarice Lispector)


Tenho Netuno em cima do meu Sol no mapa natal. Astrologia isso. E poesia, porque tudo pode ser transformado em poesia. Ou mais que isso: tudo É poesia. Mas traduzindo, olho o mundo sempre através de uma lente de assombro. Um plástico voando torna-se, aos meus olhos, uma dança. A dança da entrega do plástico ao vento. Ou do homem ao seu destino. Enfim, há uma espécie de autismo nisso tudo. No bom sentido. E não sei se existe mau sentido. Mau sentido há quando há sofrimento. E ver poesia em tudo não faz sofrer. Não a mim. O problema está, entretanto, em traduzir o que vejo, exatamente como vejo e sinto. Faltam palavras. Às vezes tento, mas elas ficam sempre aquém da sensação vivida. Netuno impõe-me uma nova linguagem, uma linguagem poética, e há métaforas netúnicas quase indecifráveis.

Ainda sobre o impacto da psicologia arquetípica de Hillman, fico pensando na força da imagem. No poder da imagem. Na veracidade da imagem. Há o intraduzível. Só a arte pode esboçar o intraduzível. Só a poesia pode abraçar o intraduzível. Criar com ele uma relação íntima. Um casamento, porém, que preserve os mistérios que não se desvelam nunca. Ainda assim, só a arte pode acariciar o intangível e eriçar seus pêlos. Causar arrepios. Excitá-lo e levá-lo ao gozo.

A psicologia arquetípica de Hillman é oftalmológica. Trata dos olhos, mas não dos olhos físicos. Trata dos olhos sutis. Do olhar. Recupera não as córneas, mas o assombro. Porque, de algum modo, nossos olhos estão adoecidos. Ficamos com as palavras e suas interpretações estereotipadas porque não acreditamos mais nas imagens que nos arrebatam. Tememos as imagens que a imaginação ainda consegue criar, muito através dos sonhos, por julgarmos serem elas inverossímeis. Nossos olhos adoeceram tanto, que já não conseguimos reconhecer nas imagens a representação fiel de realidades íntimas e fundamentais.

Novamente, trago a criança como foco principal na Arteterapia. Porque as crianças olham com assombro aquilo que desprezamos. As crianças tentam desvendar aquilo que para nós, adultos, não passa de uma casca sem conteúdo. Não vislumbramos os véus, a infinitude de véus que recobrem a existência. Não há nada que brilhe, todo verde não passa de um verde, os adjetivos morrem afogados no lago raso e enlameado dos nossos olhos enfermos.

A Arteterapia é a terapêutica do assombro, do êxtase, através do processo criativo, da descoberta de imagens que, por si só, mostram o caminho que a alma procura. E muitas vezes a criação é a própria alma a falar. Na medida em que vamos criando, sem preocupações estéticas, deixando-nos guiar pelas sensações, pela alma encarnada nas mãos, vamos também alcançando a criança que deixamos para trás e que tanto tem a nos dizer, a nos mostrar, a nos perguntar. O assombro volta. A alma ganha vida novamente. E descobrimos que o mundo, a existência, não tinha as cores cinzas que víamos com o olhar adoecido. O colorido volta. O caminho às vezes é outro, contrário àquele que estávamos fazendo. Mas perdemos o medo de começar a ser, enfim, quem verdadeiramente somos.

O anseio de Clarice Lispector, registrado no alto da página, reflete o pedido da alma, que perdeu a voz.  “Capta essa outra coisa de que na verdade não falo porque eu mesma não posso." Eu mesma já falei isso inúmeras vezes enquanto paciente. Ninguém pôde me dizer: fique com a imagem. Não há como eu, como terapeuta, não dizer convicta: fique com a imagem.Que é essa outra coisa de que fala Clarice e que ela confessa não saber dizer. E olha que Clarice falava com a alma como ninguém.

É preciso olhos enviesados e Lua cheia para encontrar a si próprio. E a Lua é o próprio feminino, no seu sentido mais amplo: é arte,  intuição,  imaginação e delírio.

A imaginação é a respiração da alma.

5 de mai. de 2013

Psicopoetas: A Psicologia Arquetípica de Hillman







Umas palavrinhas a respeito do Seminário de Marcus Quintaes sobre Hillman, criador da Psicologia Arquetípica, do qual participei e que terminou hoje. Muito terei o que falar após trilhões de reflexões e associações que farei. Mas quero registrar isso aqui com o olhar desse momento, que está fresco ainda.

Não foi fácil o primeiro impacto, resultante das desconstruções (mas como é bom desconstruir... acho que a desconstrução é também uma construção, construção do vazio, o útero de onde renasceremos). Mas eu já estava pronta. Quando comecei a estudar Hillman, a ler os seus livros e entrevistas, sabia que estava ali um homem que me faria morrer. Morro diariamente, como boa escorpiana, mas há as mortes profundas pressentidas. Não tenho medo da morte, muito pelo contrário. De algum jeito eu já sabia que estava morrendo, mas o Seminário deu conclusão a esse maravilhoso evento, que é a  Morte.

Eu procurava Hillman. Há muitos anos. Não sabia exatamente de onde viria quem ou  aquilo que eu buscava. Eu procurava a Poesia com o status de curadora, cuidadora, terapeuta. A Poesia foi cuidadora de minha alma por anos a fio. E ainda o é. Às vezes um verso dissolve velhos tumores da alma. E eu sei, sempre soube disso.

Nas várias terapias que já fiz, com profissionais competentes, com amor pela vocação, sempre sentia que, apesar de terem proporcionado muitas transformações positivas na minha vida, faltava algo importante. Eu não sabia exatamente o quê, mas tinha consciência plena de que faltava. Descobri com Hillman que o que faltava era alma. “fazer alma” é um termo de Hillman que sintetiza a minha afinidade com a Psicologia Arquetípica.

No fundo, não é nem possível falar com profundidade da Psicologia Arquetípica se quem o fizer não tiver alma de artista, não tiver poesia na alma. Isso é uma interpretação muito particular minha, uma visão de quem apenas está começando um caso com James Hillman. Porque a Psicologia Arquetípica é uma terapêutica poética. E talvez no fundo a vida seja mesmo um grande poema a ser vivido.

“Fique com a imagem”. Essa expressão de Hillman, por mais que eu lesse, sua compreensão me escapava. Parecia que alguma instância de mim entendia, mas conscientemente eu não me dava conta do que ele estava dizendo. O Seminário com Marcus Quintaes elucidou isso. Mais uma vez, numa leitura pessoal, eu diria que “Ficar com a imagem” é escolher a poesia, a beleza, escolher adentrar o sonho e tocar na sua tez. Ficar com a imagem é embriagar o olhar para ver mais e usar o tato para explorar a pele de seda do sonho, dos desejos, dos medos.

Outro aspecto da Psicologia Arquetípica que me seduziu profundamente eu posso explicar usando como exemplo a alopatia e a homeopatia. A alopatia, de uma forma geral, trata todas as pessoas com o mesmo remédio, sem considerar as diferenças. A homeopatia já olha o paciente de uma outra forma. Ela considera as diferenças na hora das prescrições. Pois então, a Psicologia Arquetípica nos singulariza. E eu acredito que toda inteireza é construída sobre o respeito às diferenças, Ser inteiro é acolher a diversidade. A psicologia de Hillman não petrifica as figuras mitológicas, não nos amarra a determinados arquétipos porque está longe de se aproximar do literal e muito, muito perto da literário.

Eu já tive muita dificuldade de engolir algumas interpretações de sonhos. Não era resistência, era uma percepção inadequada e viciada sobre eles, que não me trazia nenhum sentimento que pudesse atestar que eram legítimas as interpretações profissionais. Repito a expressão “olhar viciado” para acrescentar mais uma boa percepção da Psicologia Arquetípica: ela não vicia os olhares do analista, do terapeuta.  Ela não nos faz arrastar o peso dos símbolos, como se estivéssemos acorrentados a eles.  O símbolo é muito pobre em ralação à imagem. A imagem é muito mais do que a soma de símbolos, ao estilo bem cartesiano.

“Ficar com a imagem” é uma expressão sobre a qual ainda preciso refletir muito e sobre a qual estarei falando a qualquer hora por aqui.

É evidente que tudo isso modifica minha atuação como arteterapeuta.  Haverá mais poesia. As produções artísticas serão olhadas com muito mais amplitude. Os pacientes terão uma olhar singular sobre suas singularidades. Mas isso de uma forma efetiva.  Parece-me um casamento promissor e sólido esse entre a Arteterapia e a Psicologia Arquetípica. E por hora é isso.