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11 de fev de 2014

A primeira vez é sempre!


Imagem: web

No princípio, existe a força da Vida. Li esta frase há muitos anos num livro simples e profundo escrito por uma médica. Levei anos para crer nesta força.  Assegurei-me dela no decorrer da minha própria jornada, durante a qual, em muitos momentos, apostei na veemência da Morte. Mas a vida arrebentava pedras e vinha em cachos de flores; surgia na água suja de uma poça; vencia a ignorância de mulheres que atiravam ao lixo o seu rebento. A Vida triunfava inúmeras vezes, inexplicavelmente.

Um dia disseram-me que o anseio obsessivo pela Morte nada mais era do que o desejo de viver plenamente. E compreendi que a Plenitude era o inimigo número um do sistema em que vivemos.  Pela insaciabilidade eterna, aprisionam-nos. Morríamos e morreríamos todos os dias pela mesma razão. O consumismo é o verme solitário que nos aumenta a fome e perpetua o vazio. E a morte – despojada de sua aura de mistério – vem em suas versões nocivas, transformando-nos em zumbis.

Mas voltemos à força da Vida. A vida é cheia de incógnitas e mistérios. Todos nós os vivenciamos, mas já não nos damos conta disso. Muitos acreditam, inclusive, que caminhar para fora do Mistério é a saída para recuperar a força para a Vida. A inversão de valores é uma marca profunda dos novos tempos. É pelo Mistério que nos reerguemos do chão, que ganhamos asas e criamos amplitudes. Penetrar no Desconhecido é uma porta evitada pelos homens. Mas está justamente aí a Saída.

Ao idealizar esse trabalho com mulheres que vivenciam – pelo menos teoricamente – a maturidade, levei em conta os valores que regem a nossa época. Considerei a completa dessacralização do Feminino. A angústia – na maioria das vezes inconsciente – experimentada por mulheres em faixa etária que varia dos 35 aos 50, 60 anos, com o declínio paulatino da juventude, numa sociedade onde o envelhecimento é concebido como doença.

O fio condutor de nossos encontros será a busca de experimentar a vida diretamente, sem passá-la pelo filtro das crenças, ideias preconcebidas, expectativas. Recapturar um senso perdido de encanto diante das experiências do cotidiano. Compreender as doenças e sofrimentos como estados em potencial de transformações para o amadurecimento e o crescimento. Recuperar a nossa “cor original”, o nosso brilho, o nosso corpo de luz. E a escolha do nome para o nossos trabalhos, nossos encontros – A Primeira Cor –, veio de um poema de Orides Fontela (1940-1998), que sintetiza bem a essência dos nossos objetivos:

A primeira cor

Abrir os olhos.
Abri-los
como da primeira vez
– e a primeira vez
é sempre.

Embora seja um trabalho gratuito (realizado mensalmente), tenho esperança de que o grupo de 15 mulheres tenha a marca da diversidade etária, cultural, social e todas as diferenças que enriquecem uma Caminhada. E que em todos os dias de nosso encontro possamos estar vendo a vida – a nossa vida – e o mundo pela primeira vez.