Gente que inspira

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3 de nov de 2011

Sete asas

 
 
Foi Lilith
Quem me fez
Rasgar o véu
E me cravou  na pele
A insígnia da noite.

Foi ela
Quem me abriu os olhos
Para a poesia escura
Do sangue com a terra
Dos rugidos ecoantes das feras
Sob o domínio noturno
Das fêmeas.

Foi Lilith
Quem abriu a fenda no útero
E dela fez boca.

Só ela, a Lua Escura,
Pôde me fazer entender
Que duas asas são sonhos masculinos
Porque mulheres rememoram
As sete asas com as quais
Percorreram a escuridão
Onde estabeleceram seu reino.

(*Inspirado em produção arteterapêutica)

Pássaro antigo sangrando à beira do abismo


Há pouco descobri o que fazer da minha ignorância: caminhos inusitados! Ontem ouvi um ator verbalizar que não entende como conseguiu passar 78 anos de sua vida sem saber dançar. Não era tarde – nunca o é – e começou, enfim, a ensaiar os seus primeiros passos. Lembrei-me de mim, nesta quase segunda metade da vida, resolvendo um conflito básico da minha existência: atirar-me no abismo e viver o desconhecido ou reincidir nos passos freados bruscamente à beira de cada precipício que me chama há séculos?

Dançar pode dar certo, mas não rodopiei ainda com o corpo. A experiência veio de outra instância – mas também artística, por assim dizer –, como um convite da alma às mãos, tendo o papel branco como abismo e uma caixa de tintas – muitas tintas – à minha disposição. Pintar – nunca o fiz! E lá estava eu intimada a deixar que qualquer coisa desconhecida se desprendesse da alma, escorresse pelos dedos e se tornasse algo no espaço vazio à minha frente.

Viciada, procurei as cores habituais da minha loucura mansa – não as encontrei. Uma lambuzeira púrpura ensaiou-se no centro do papel, desconhecendo totalmente o seu destino último. “É assim que um filhote de pássaro aprende a voar”, pensei, com pincel empunhado e olhar trêmulo.

A alma sussurrou-me que me deixasse escolher pelas cores. Uma vertigem sangrou o infinito branco do papel posto à minha frente. Sobre o vermelho, um verde-musgo alvoroçou uma cauda espalhafatosa e brilhante, em movimentos que lembravam o abrir-e-fechar do rabo de uma ave. O que era aquilo, eu não sabia. Mas uma desordem buscava o seu sentido próprio, e a minha mão obedecia, ofegante, ao ritmo imprimido pelo bailado do tufo de fibras sobre o papel.

Em meio a um quase transe, uma voz instigava-me a transgredir as margens do papel, a espalhar o corpo recém-nascido para além dos limites estabelecidos pelo espaço, pelas regras que nos fazem estancar diante dos inúmeros abismos que nos convidam a viver.

Precavida, acudiu-me a providência de uma moldura qualquer, de uma cor qualquer, que me garantisse um retorno seguro ao mundo real, porque o tempo estava acabando e o delírio – embora vívido – não poderia prosseguir pelos caminhos de terra por onde os passos costumavam seguir.

Quem é você? – pus-me a pensar mirando a figura esquisita que nascera através de minhas mãos. De onde vem? – minha mente concreta ansiava por um nome, um lugar, uma explicação.

E uma voz primeva socorreu minha ânsia:

– Pássaro antigo sangrando à beira do abismo!

(*Inspirado em produção arteterapêutica)

Sob os escombros de pálidas máscaras



À carícia da renda preta
Pétalas de uma negra flor
Abrem-se da alva pérola.

O rosto é véu
Que envolve um segredo
Oculto na alma.

A alma é simples:
Ramos secos
e estalidos imaginários.

À carícia da renda preta
Pássaros coloridos
Oferecem pedaços dos seus vôos
e riscam o escuro dos céus em tons suaves.

E sob os fios delicados do negro leque
Guarda-se um passado longínquo
De flores que um dia falaram
De vidas que floresceram
De um tempo que perdura
Sob os escombros de pálidas máscaras.

(*Inspirado em produção arteterapêutica)

Cristal de fogo na pele



Rubis microscópicos
Rompendo meu corpo
E você falando de corte:
[Esqueça, que eu já não sangro:
Eu cristalizo fogo na pele.

Que reste então a cobiça
Pela dor vermelha
Que roubem os quartzos brancos
Que deslizam pela minha face
Que creiam que pela minha idade
Eu já mereça algum crédito.

No mais, que o analista me escute
Que se atormente com os meus delírios
Que enxergue os lírios tingidos de sangue
E explique minhas fúrias floridas
Através de seus compêndios.

Eu quero mais
[e quero mais e mais]
É nomear as coisas sem nomes
E dissolver os nomes
Que já não traduzem mais
Essa coisa larga
Espessa
Que vista de cima
Me causa aflição.
[Eu quero é ver de dentro.

(*Inspirado em produção arteterapêutica)

Arte que cura!


As suas mãos – que você quase não usa – descobrem, de repente, que podem pintar, colar, desenhar, bordar, dar forma ao barro. Há palavras que você gostaria de falar, sentimentos que precisava esclarecer, questões que sequer ousou formular para si mesmo, mas que não deixam de ocupar os seus pensamentos.

O caminho da palavra não o levou ao centro de si mesmo. O toque incisivo no seu corpo apenas amorteceu a inquietação da sua alma. Mas a ânsia de saber de si persistiu.

Um dia, pela primeira vez, você usou as tintas com as mãos, olhos vedados, e um animal em perigo atravessou correndo o papel. Quem era ele e o que viera dizer? Em que parte de você o bicho se escondia e como pôde ser revelado de uma forma tão inesperada?

Ainda lembro do dia em que você pegou o pincel pela primeira vez e timidamente sangrou no papel a vida de um pássaro antigo, à beira do abismo. Eu sabia, você sabia que o voo estava em ensaio, mas que era para o infinito que as cores misturadas apontavam.

Certa vez você decorou uma caixa por dentro e por fora, e a face externa da caixa ostentava o seu semblante mais antigo, enquanto por dentro uma ingênua menina camponesa depositara um raminho de flores secas no fundo da caixa. Não demorou para que você soubesse que as duas eram você. Que a mais velha, a de fora, protegia a menina frágil, delicada, a de dentro.

Não, não foi mero acaso teus dedos banharem-se de verde e passear pelo papel branco, pincelando-o como se recriasse a natureza. O verde diz muito de você, revela facetas que talvez lhes sejam desconhecidas.

Curiosamente, você nunca achou feias as suas criações, e mesmo como aprendiz soube entender que criar é o dom divino que nos liberta. Depois de algum tempo, você pôde compreender que o seu inconsciente falava através de símbolos e que a arte era o canal através do qual esses símbolos se esboçavam.

Essas descobertas em relação à Arteterapia levaram-no a pensar que criar é como sonhar. Na arte, o sonho ganha forma e vida real.  Através da arte é possível estabelecer contato com o universo oculto do inconsciente e começar a entender como é mágica a história que vamos contando a nós mesmos, nossa própria história, que estivera desconhecida, mas que se revela pela criação, pela imaginação, pelos movimentos, pela encenação...
Verdade é que a Arteterapia é a abordagem terapêutica dos novos tempos. Ela é um convite a que desenvolvamos o nosso dom divino da criação, estabelecendo elos entre o mundo externo, nosso conhecido, e o mundo misterioso do inconsciente, que nos fala através de símbolos. Criar pra curar: isso é a Arteterapia!