Gente que inspira

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6 de dez de 2013

Felicidade com glitter





Há uma expressão muito minha, muito íntima, que não verbalizo nunca, mas constato e penso, em algumas raras vezes nesta vida: estou secretamente feliz!  Duvido que o que chamo de felicidade seja ela mesmo, a tal Felicidade prometida só mesmo nos paraísos, nos Edens da vida. Mas consideremos a nossa idealização de felicidade mais próxima da realidade terrena. É dela que falo. É ela que já me visitou algumas poucas vezes, sem que eu tenha feito alarde e anunciado aos quatro cantos do mundo.

Começo falando dessa “felicidade secreta” para deixar claro que não faço apologia à tristeza. Muito menos à felicidade. Mas não posso deixar de lembrar que vivemos a era da ditadura da felicidade. A felicidade virou um produto e a maioria vê-se na obrigação de consumi-la. Acontece que a obrigação de ser feliz vem nos tornando secretamente e cada vez mais infelizes. Patologizaram a tristeza. É vergonhoso e humilhante não estar feliz. Bonita parece ser a alegria pré-fabricada, intensificada pelo rivotril, que ajuda a evitar a humilhação de não poder sorrir. E nem se fala na existência de uma felicidade calma, reservada, secreta, sem glitter

Acontece que ela existe. Em dose terráquea, sem os esplendores do Paraíso, mas com a suavidade e o bem-estar proporcionados por pequenos e significativos momentos de nossa vida. Quando aprendemos a olhar com embriaguês, com poesia, para a vida e seus mistérios, podemos ser arrebatados momentaneamente. Um pôr-do-sol, uma música, um livro, um abraço, o vento, o mar e tantas e tantas coisas “insignificantes” sob a ótica capitalista do consumo. Porque é preciso “comprar” felicidade. E ela deve ser luminosa, exuberante, estrondosa, felicidade com glitter.

Entre os tantos benefícios proporcionados pela Arteterapia, a possibilidade de encontros legítimos com a felicidade. O fazer artístico com fins terapêuticos proporciona encontros essenciais, fundamentais com a Alma, E cria espaço para uma felicidade que nos ilumina de dentro da fora, sem néon, sem brilhos extravagantes, sem glitter.

Acredito que a tristeza e os seus parentes mais velhos e severos, como a depressão, são entidades subversivas. Elas se insurgem contra a felicidade com glitter, reivindicando o seu lugar, exigindo que as cortinas do teatro sejam fechadas, para que possamos viver de verdade os nossos sentimentos, sejam eles quais forem.

A Arteterapia acolhe a tristeza e todo e qualquer outro sentimento. As mãos dão concretude ao que está submerso, oculto, aprisionado. E, ao fazê-lo, começa a abrir as portas que guardam a simplicidade da felicidade que nos sussurra verdades de extrema beleza. Não, e não há pressa. Recriamos a tristeza em vários matizes. Ela toma as várias formas que o fazer artístico possibilita. É soberana, na maioria das vezes, porque chegamos ao trabalho arteterapêutico ainda com os anseios provocados pela exuberante felicidade que se tornou lei e que nos persegue dia a dia. E é ela que nos mostra os compartimentos secretos de nós mesmos.

No desenvolvimento da terapia, encontramos, inúmeras vezes, com a felicidade em sua aparência mais legítima. E a tendência é que passemos a encontrá-la mais vezes ao longo de nossa caminhada, porque nos libertamos da tirania do “sorriso alvo e perfeito, proporcionado pela pasta de dente X”.

A Arteterapia é um convite à felicidade íntima, nascida de pequenas sementes que deixamos ensacadas, porque estamos sempre ocupados em comprar felicidade em alguma concessionária, na clínica do cirurgião plástico, na academia, nos estabelecimentos que vendem a efusividade em todas as cores e tamanhos. Mas a verdade é que a felicidade com glitter está adoecendo corpos e almas. Esvaziando de sentido a vida de muitos. E aí, a tristeza subversiva trata de fechar as cortinas e trancar as portas do teatro, convidando-nos a uma vida real.










26 de nov de 2013

Traduzir-se: a arte de contar a própria história - Uma vivência arteterapêutica




A Poesia ainda é a arte maldita. Embora a formação em Arteterapia tenha sido eivada de poesia, sob a coordenação de uma profissional também de alma poética, faltou a Poesia como disciplina, como exercício embriagante de olhar a vida. É essa lacuna que sonho em preencher com o trabalho que será realizado no próximo ano, junto com outros.

O ser humano em “estado poético de alma” é um criador mais arrojado, mais transgressor e original, porque a embriaguez do olhar vislumbra uma realidade inédita e cria saídas inusitadas onde parece haver apenas muralhas intransponíveis.

A vida dos homens e mulheres de olhar embriagado ganha um sentido muito mais profundo, porque os caminhos se multiplicam; os sentidos se avivam; a consciência amplia-se; e eles podem, então, perceber que conhecem apenas pequena parte do que seus olhos, de fato, sempre enxergaram.

A Poesia é um alucinógeno natural, porque fascina, eleva, transforma, encanta, embriaga – doce embriaguez! E é preciso recuperar o estado poético de alma que, quando crianças, conhecemos tão bem. Impregnar-se de poesia é inaugurar uma nova e iluminada vida.

Mas entrar em “estado poético de alma” não significa escrever poesias, embora isso possa acontecer com um ou outro. O “estado poético de alma” é uma postura de vida, é o descobrir no velho o novo, e aprender a acreditar que a Poesia tem o poder de transformar, de ampliar horizontes, de criar uma imagem de nós mesmos mais parecida com a nossa própria alma.

De “estado poético da alma” eu denomino a condição de não-embotamento que poucos conhecemos verdadeiramente, quando é possível construir e realizar para além das viabilidades medianas.

A proposta de nossa vivência, no ano que vem, é trabalhar a expressão encantada: a palavra, os gestos, as expectativas.  É, por assim dizer, desliteralizar as expressões calcificadas da existência.

Nossa história de vida será vivenciada poeticamente. Dialogaremos com o eu-lírico soterrado sob os escombros das linguagens empobrecidas. Saberemos das facetas que ainda não desvelamos e acolheremos os outros de nós sem conflitos.

Mas essa vivência, como o próprio nome diz, pretende apresentar, em forma de arte, os principais capítulos da vida de cada um. Uma vida recriada, através da arte, por olhos embriagados, alma em transe poético. 

Ao final dos trabalhos, confeccionaremos, artisticamente, o nosso Livro Pessoal, em linguagem viva, abdicando de personas que já não nos servem mais.

Na arte de contar a nossa própria história, ressuscitaremos a linguagem encantada dos nossos primeiros dias de vida. Resssignificaremos páginas do livro de uma vida que adoeceu de literalidade. Devolveremos à imaginação o satus de biografia real. Escreveremos com letras vivas, inéditas, o mistério de ser quem somos verdadeiramente.

Gaston Bachelard , o filósofo, escreveu: “Do homem amamos acima de tudo o que dele se pode escrever. O que não pode ser escrito merece ser vivido?

Traduzir-se. Contar com arte, poesia, a história de nossa vida real, aquela que esmaeceu em folhas rejeitadas de um livro que nos recusamos a escrever.

É preciso enlouquecer o verbo, como nos ensina o poeta pantaneiro Manoel de Barros. Recuperar as palavras na sua infância, quando a poesia não é um gênero literário, mas a expressão viva e mutante de homens e mulheres que se metamorfoseiam a cada instante.

Conta-se que Zeus, em conversa com o deus Mercúrio, invejou a mortalidade dos homens. Os sentimentos sublimes que só são conhecidos por aqueles que conhecerão o fim. O borbulhar das emoções humanas, com seus anseios, suas dores e seus medos, que fazem da vida o mais belo livro que pode ser escrito. O poeta Fernando Pessoa fala, em um de seus inúmeros poemas, que ama infinitamente o finito. E na finitude da vida humana abriga-se a nossa história, que reaprenderemos a contar.

Como profissionais da escuta terapêutica, nós outros também necessitamos aprender a contar a nossa própria história. Sensibilizarmo-nos com os aspectos poéticos de nossas vidas, independentemente de como a tenhamos vivido.

A arte maldita - a Poesia -, longe de significar elucubrações, abstrações inúteis, possibilita a ressignificação da vida. A nossa história contada pode parecer um sonho. Dissolvemos sólidas imagens da chamada "realidade" e mergulhamos em profundas verdades da imaginação. Traduzir-se é recriar-se, exaltando-nos como heróis anônimos, mas incondicionalmente comprometidos com a jornada da vida. 

Esse será um dos três trabalhos que desenvolveremos no ano que vem e, tão logo termine o ano de 2013, começaremos a divulgar para os interessados Nos próximos posts falaremos dos outros trabalhos programados para o próximo ano.

28 de out de 2013

Eu gosto dos que ardem: Manoel de Barros e James Hillman







Troquei minha paixão por Jung pela paixão por Hillman. Não que tenha esquecido de Jung e desprezado tudo o que um relacionamento proporciona de aprendizados; mas a paixão é importante – esse filho da fagulha que nos incendeia. Paixão é Hillman. Quer dizer, meu lado terapeuta apaixonou-se por Hillman, meu lado poeta carrega um caminhão por Manoel de Barros. Afinal, verdadeiramente, analista e poeta têm muito em comum. Não concebo o entendimento da Psicologia Arquetípica de Hillman sem uma sensibilidade poética, ainda que não precisemos todos “fazer poesia”

Não esqueço, contudo, que a paixão é fogo de palha e pode extinguir-se um dia. Amadurecida, a gente entende que não há verdades definitivas, e o que hoje parece responder aos nossos questionamentos mais profundos pode se transformar em algo capenga, equivocado, enfim. Mas, por enquanto, a Psicologia Arquetípica ainda não me deu motivos para um arrefecer da paixão.

Sempre ouvi muitos sonhos, desde adolescente, embora nada soubesse deles que não fosse fruto da minha imaginação. De algum modo, eu acreditava nas minhas invenções. Na caminhada, vieram as leituras, os estudos de vários estudiosos. A formação em Arteterapia teve uma abordagem junguiana, apaixonante, mas com frestas de uma lucidez que impedia o crescer das labaredas. Até que veio Hillman. Na verdade ele ainda está vindo. Mas é ardente. “Eu gosto dos que têm fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem”... O trecho da canção de Adriana Calcanhoto diz tudo. Diz “Psicologia Arquetípica”. Diz “fique com a imagem”.

Quando nos desconstruímos (e eu estou em abençoado processo de desabamento), a “velha opinião formada sobre tudo” aparece, como espectro de um vigilante altivo, a querer medir, na prática, nosso grau de convicção a respeito do novo, e medir forças também. Mas a poesia emprestou seu ouvido à terapia. À Arteterapia, no caso. Se é que um dia, em mim, estiveram dissociadas. Todos os eventos são, naturalmente, arquetípicos, que maravilha poder entender isso de uma forma espantosamente natural!  Que bom poder escutar encantada a singularidade, sem anseios de enquadrá-la num modelo universal!

Meus dois amores – Hillman e Manoel de Barros, mas não necessariamente nesta ordem – acabam por se completar, ampliando o território da Poesia, dando-lhe um destino para além do arrebatamento, do enlevo da alma. Em algum momento, a fala de um se sobrepõe a do outro. Hillman é sedutor porque é poético. Manoel, porque é poesia. E é ele – Manoel – que me traz a lição definitiva a respeito da alma humana: "Você sabe discutir coisas aqui, mas o sentido da vida, essa incompletude que agente tem - nós somos incompletos, sentimos incompletude - só pode ser completada com 'o mistério'." E é assim que me conduzo: ir até onde for permitido, sem tentar devassar o mistério que todos precisam ter preservado. O homem sem mistério é um homem raso.



7 de out de 2013

Sonho que se sonha junto é realidade!



A oficina arteterapêutica Sonhar com as Mãos foi  o início de uma caminhada em direção à Terra do Encantamento, ao território onde reencontraremos nossa Originalidade, o espaço livre da Imaginação Criadora. As palavras gastas foram regidas pelo som límpido e ancestral que, na próxima parada, possibilitará adentrar a dimensão onírica da comunicação. Logo adiante, buscaremos a Palavra Encantada, com a qual poderemos colorir as relações. Meus mais profundos agradecimentos a todos que sonharam juntos. Os sentimentos mais profundos lá foram ditos de olhar para olhar. E foram compreendidos pela Alma. Obrigada a todos e aos nossos mestres internos, que nos guiaram do início ao fim. Sonhemos com as mãos!








8 de set de 2013

Alquimia com as mãos




 
Aproxima-se o Sonhar com as Mãos. Esta oficina nasceu da minha alma poética,das horas que gastei refletindo sobre a essência da Arteterapia, das descobertas fascinantes sobre os sonhos, da vontade de ousar usar a poesia para abordar a Arteterapia. Mais do que uma oficina, este trabalho é um mergulho nas nossas origens, o reconhecimento das partes feridas de nossa alma , a alquimia de transformar o sangue em arte, o choro em canção. Tudo no território da não-palavra, como se estivéssemos criando um mundo, pouco a pouco.

A oficina será vivenciada como um sonho e certamente sairemos do trabalho mais transformados em nós mesmos. Estaremos mais perto de nossa natureza original, assim como também mais criativos e abertos para a felicidade.

Na segunda oficina do Sonhar aproveitaremos muito do trabalho da primeira e, saindo do território da não- palavra, caminharemos suavemente para o território da Palavra Encantada. Outras modalidades artísticas serão, obviamente, exploradas na segunda oficina.

A sequência de oficinas do Sonhar tem um único fim: deixar as pessoas próximas de sua alma, conhecedoras de seus potenciais e, sobretudo, acima de tudo isso, ajudar a cada pessoa a trazer pra fora, a descobrir a sua originalidade. Só assim se pode ser feliz de verdade.

O convite continua sendo feito àqueles que querem fazer alquimia com as mãos.

6 de set de 2013

Oficina arteterapêutica Sonhar com as Mãos

INSCRIÇÕES ABERTAS - VAGAS LIMITADAS


 
Dia 5/10/2013
Horário: das 08 às 12
Investimento: R$ 160,00
Para os que se inscreverem até o dia 5 de setembro: R $120,00

As inscrições poderão ser feitas através do e-mail trcontreiras@gmail.com, com o envio do comprovante de depósito.
Tânia Regina A. Contreiras de Carvalho
Endereço e telefones constam no folder

Caixa Econômica Federal - Ag: 1236 OP 013 Conta-poupança: 110635-8


 






















2 de set de 2013

Arteterapia: a arte de curar pelo delírio







Cogumelo artesanal - A arte como delírio





“Pra que esse diabo de arteterapia, que pintar e dançar não vai curar ninguém? “. Verdade. E acredito que a essência da Arteterapia ainda não foi bem traduzida para o mundo dos obcecados pela compreensão intelectual das coisas. Acho que a minha definição íntima e profunda da Arteterapia é a seguinte: Arteterapia é a arte de curar pelo delírio. Enquanto outros profissionais da cura da alma acreditam que é preciso interpretar os delírios, o arteterapeuta de alma sabe que os delírios precisam ser vivenciados. Que adoecemos sem eles.  Que a dimensão delirante do ser humano é real, de uma realidade íntima e pessoal. É preciso ressuscitar essa dimensão delirante nos pacientes. E buscar compreender o que o próprio delírio solicita. E a moça que fez seu auto-retrato  com asas nos pés contou, através de sua arte, o seu delírio de voar, literalmente, como os pássaros. Seu delírio não podia ser suprimido. A “cura” se daria através da realização do delírio. E a moça compreendeu que as suas asas estavam na cabeça. Era o delírio as suas asas. E voou longe, alto, ruflando as asas leves dos devaneios.



Às vezes o arteterapeuta precisa ajudar o paciente a não temer os delírios, mostrando que nossa dimensão delirante é fonte de vitalidade, inspiração, criação, ineditismos. Os jovens que penam para escrever uma redação escolar ou de concursos sofrem, como a grande maioria, de falta de imaginação. São pessoas que não conseguem libertar-se da realidade desidratada O mundo não passa daquilo que seus olhos físicos enxergam. E já trabalhei com eles, constatando que o problema resume-se essencialmente na falta da imaginação. Alguns confessaram que não sabiam imaginar. Criamos pela imaginação. Executamos o que foi concebido pelo delírio. Sem delírio, deixamos de exercitar a parte nossa que mais nos une à nossa divindade: a criação! A criação real, inédita! O delírio!



Lembrando aqui da oficina Sonhar com as Mãos, que caminha nesse sentido. No delírio estão contidos símbolos sagrados para a alma do delirante. A educação oficial não investe no delírio. Nas minhas aulas de teatro tenho agradado e sendo reconhecida como talentosa para representar, sem experiências anteriores de teatro. E isso se deve (eu não sabia desse meu talento) ao fato de a Arteterapia, na forma que acredito, ensinar o delírio, a imaginação como caminho de cura.





Lembrei-me de repente da frase de Jung que uso junto com minha logo: “Em todo adulto espreita uma criança – uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo, e que solicita atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa.” Acredito profundamente nisso. E por isso, A Arteterapia ajuda na cura da criança ferida do adulto.



Nossas feridas vêm. Muitas vezes, de longe. É o nosso bicho interno, nosso animal ferido que abandonamos e relegamos a um reino inferior.  Em nós, humanos, temos todos os reinos: mineral, vegetal, animal. Mas não damos vozes aos que querem expressar-se como uma amendoeira ou como um capim. Vozes que urram, rugem. Gorjeiam. O Sonhar com as mãos trabalhará os reinos mineral, vegetal, animal, buscando encontrar a nossa voz relacionada a cada etapa.



Bem, uma ambiência de sonhos, um chamado da música- do- fazer- sonhar e a vivência de sonhar com as mãos de forma mágica, a máscara-palavra dando espaço para adentrarmos no território virgem de palavras. A dimensão da não- palavra

                                                                                 .



E para concluir, acredito também que a Arteterapia cura ao possibilitar que exerçamos a nossa maior vocação divina: a de criadores. Toda criação, a rigor, é uma revelação, penso eu.



E mais convite pra essa aventura do sonhar.  sonhemos com as mãos?

31 de ago de 2013

Bem-vindos ao sonho!



Muito já foi dito sobre a oficina Sonhar com as Mãos. Os textos anteriores buscam traduzir um pouco da sua essência. A partir de segunda-feira, dia 2/9, as inscrições estarão abertas. Gostaria, contudo, de lembrar que essa primeira oficina do Sonhar abre um caminho que trilharemos com a oficina do Sonhar nº 2, onde trabalharemos a Palavra Encantada. Nesse primeiro momento,  vivenciaremos o território da não-palavra. No segundo Sonhar, trabalharemos a palavra com o onirismo de que foi despojada. Agora é sonhar. Buscar estreitar as fronteiras que nos separam da dimensão noturna, onírica, e sonhar acordados, com as mãos, sobretudo. Aos que estiverem dispostos a viver essa aventura, aproximem-se. Um mundo de sonhos espera por vocês.


Dia 5/10/2013
Horário: das 08 às 12
Investimento: R$ 160,00
Para os que se inscreverem até o dia 5 de setembro: R $120,00

As inscrições poderão ser feitas através do e-mail trcontreiras@gmail.com, com o envio do comprovante de depósito.

Caixa Econômica Federal - Ag: 1236 OP 013 Conta-poupança: 110635-8

Vagas limitadas. Reserve sua vaga por e-mail.











30 de ago de 2013

Ponte para a linguagem dos sonhos (Oficina Sonhar com as Mãos)







 A linguagem abafou a voz. A voz verdadeira, essa que não encontra palavras que lhe sirvam de passagem. Na Arteterapia me pediram pra emitir o meu som, cantar a minha canção e dançar a minha dança. Eu não sabia que existiam dentro de mim. Eu não sabia se conseguiria. Mas eu quis tentar. Um pássaro cantou suavemente pela minha boca. Um canto inédito. Um mundo novo mostrou-se aos poucos. Nós somos apenas o invólucro do Mistério. E ele não se revela através de uma única linguagem, um único padrão. Ele silva, gorjeia, urge, brade... Ele se mostra no falso ilogismo  das linguagens oníricas. Ele transforma a vida num assombro – aquele que nós perdemos ao desenvolvermos sobre os olhos a catarata do desencanto.

Bachelard mais uma vez e sempre: primeiro sonha-se, depois se contemplar. O que contemplamos hoje já o sonhamos antes de algum modo. Mas já não reconhecemos os nossos sonhos quando ele tenta infiltrar-se em nossa vida arrumadinha, embora infeliz. Essa voz que é a voz da noite, desconhecemos. Embora seja ela a nossa voz original. Precisamos debulhar as palavras, descosturá-las, dissolvê-las, até que encontremos o primeiro sinal da nossa voz primal, da nossa voz original, e diminuir a distância entre os mundos diurno e noturno. Até que possamos ficar mais inteiros.

A 1ª oficina Sonhar com as Mãos será o primeiro passo dado em direção à Palavra Encantada – foco de nossa 2ª oficina do Sonhar, dando prosseguimento à primeira. E a proposta foi concebida de modo a trabalharmos o nosso lado direito do cérebro, nossa intuição, criatividade, originalidade. Para isso, é necessário que possamos continuar buscando a nossa própria voz no território da não-palavra. As mãos serão o nosso instrumento de materialização de sonhos. Mas não sonhos padronizados, sonhos condicionados: serão nossos sonhos únicos e reais.

Não, essa não é uma aventura para qualquer um. O Sonhar com as Mãos é um convite àqueles que buscam defrontar-se, sem medo, com o seu verdadeiro eu, multifacetado, mas nem por isso sem harmonia. Não teorizaremos o sonho: viveremos eles!

Não estou fora dessa aventura, muito pelo contrário. Será uma aventura vivenciada por todos nós. Construir os mais profundos, verdadeiros e exilados sonhos. Entregar-se aos sentidos. Compreender que pelas mãos olhamos, escutamos, sentimos, aspiramos, inspiramos, criamos. Já temos a metade das vagas preenchidas, mesmo antes da abertura das inscrições, no próximo dia 1º. E as reservas podem continuar a serem feitas pelo e-mail trcontreiras@gmail.com. Sonhemos com as mãos!

27 de ago de 2013

Sonhar com as mãos e vivenciar o Mistério







Arte: Evelyn  Patrick


“A vida é um mistério a ser vivido, não um problema a ser resolvido”. Gosto muito dessa afirmação de Gabriel Marcel. Ela me lembra, de algum modo, uma entrevista que fiz, há alguns anos, com um competente e sensível psicoterapeuta corporal, Romero Magalhães, para quem não existem, exatamente, “patologias”, mas tão-somente processos adaptativos da ainda tão nova espécie humana. Estamos aprendendo. Adaptando-nos. Evidentemente isso dói e precisa ser cuidado. Sem, contudo, esquecermos que o “mistério” precisa ser vivenciado.

No decorrer da minha caminhada de auto-descoberta, as analogias foram instrumentos fundamentais, visto que ainda falamos linguagens diversas, aparentemente desconectadas, e as divergências acabam por deixar meio confusos aqueles que buscam compreender-se. A linguagem, a palavra, as denominações tantas vezes são a origem dessa confusão.  Mas com empenho e obstinação, conseguimos, sim, entender que, não raras vezes, estamos falando da mesma coisa.

Nesse caminhar de buscas, adentrei cavernas reais. Senti a escuridão não metafórica, mas literal. Sofri com os alaridos do silêncio e defrontei-me com a serpente sem a pele do símbolo: ela mesma, ali pertinho, nós duas, quando a necessidade de acreditar que era possível falar e ser entendida era fundamental. Viver, literalmente, a escuridão, os fantasmas, os perigos da dimensão noturna foi importante para reconhecer a força, o vigor do imaginário, da linguagem simbólica do inconsciente. Longe de desprezá-lo, a vivência real aguçou a minha percepção e o meu entendimento sobre eles.

Nossas cavernas simbólicas protegem-nos tanto ou mais que as cavernas concretas. Creio que um terapeuta precisa ter sempre isso em mente e ter a habilidade de entrar, junto com aquele de quem cuida, na caverna. Para ajudá-lo a entrar em contato com essa vida interior, o terapeuta, o cuidador, haverá de – como enfatizou Hycner – ajudar a liberar “as centelhas sagradas que ficam aprisionadas em cada um de nós”. Não para que “um problema seja resolvido”, mas para que o mistério da vida possa ser vivido com mais plenitude.

Escrevo essas reflexões pensando não em um ou outro “problema” específico dos que buscam ajuda terapêutica. Estendo meu pensamento à espécie humana. As idiossincrasias precisam ser compreendidas e acolhidas. Despatologizar a vida. Exaltar o mistério. Intensificar o olhar para o cotidiano. Tendo a crer que muito do que chamamos de desequilíbrio, desarmonia, distúrbios etc. não passa de uma impossibilidade de nos enxergarmos como parte do todo da vida. O terapeuta é, também, um reverenciador. Aquele que nos auxilia a recuperar a capacidade plena do olhar. A reverenciar cada momento da vida, devolvendo-lhe as cores.

A vida é, sim, um mistério a ser vivido, não um problema a ser extinto. Reaprender a imaginação, essa dimensão onde recriamos a nossa história. A oficina Sonhar com as Mãos é um convite a essa aventura – vivenciar o mistério, libertar as centelhas sagradas aprisionadas, ouvir a canção que ecoa no solo das palavras virgens. Sonhemos com as mãos!

23 de ago de 2013

Que seja o sonho a nos entorpecer








Arte: Chiara Fersini









Vi uma bela imagem fotográfica que foi batizada, pela autora, como “A origem dos sonhos”. Fiquei, então, pensando sobre tudo que já lera de sério sobre os sonhos. Nas teorias divergentes. Na atração que o tema exerce sobre todas as pessoas. E imaginei comigo que, sendo as pessoas diferentes, devam existir origens diferentes para os sonhos dos sonhadores. Isso pode ser apenas um delírio poético (sou mais poeta ou mais arteterapeuta?), mas faz sentido.



Eu pensara de onde tinha vindo o meu primeiro sonho, sonhado de olhos abertos. E refletia a respeito do significado que ele poderia ter para nossas vidas. Talvez para o resto de nossas vidas. E fiz de mim própria meu objeto de reflexão.



Eu poderia dizer que o meu primeiro sonho acordado, da minha vida de menina, foi uma ação, tinha movimento: eu girava! Sim, seis anos de idade, sempre procurando ficar sozinha, para poder “girar”. Eu rodopiava tanto, que não saía do pronto-socorro. Cicatrizes de tombos fortes que eu tomava girando.



Por que eu girava? Girava porque adorava ver um mundo feito de borrões coloridos girando com velocidade em torno de mim. Girava porque eu viajava ao meu planeta e sentia felicidade. Rodava porque precisava habitar, nem que por instantes, um mundo mais fluido, uma terra que tivesse a mesma tez que a minha: volátil! Se meus pais tivesse me levado a um psiquiatra, este me diagnosticaria como autista, muito provavelmente.



Pensando sobre isso hoje, com um olhar maduro, terapêutico, eu diria que este, que foi o primeiro, continua a ser um grande sonho pra mim, que muito me traz felicidades. E para explicar isso, preciso delirar, sintonizar mais com a poeta do que com a arteterapeuta. Eu preciso dizer que nunca, jamais me adaptei ao meu mundo. Sempre estive nele sem estar nele, e assim tem sido por toda a minha vida. É nele em que a criança gira e a mulher procura entorpecentes suaves para a sua loucura circular.



Se as pessoas – pais e mães principalmente – compreendessem que os jovens buscam nas drogas a transcendência. Mesmo que não saibam, eles buscam um mundo cujo ritmo seja menos acelerado, onde a vibração não seja agressiva. Eu entendo que é preciso compreender que o mundo não está exatamente numa vibração acolhedora. Desapareceram as substâncias que já o fizeram mais leves. E os jovens sofrem. Seus egos desconhecem, mas suas almas sofrem da dor de um mundo sem magia, um mundo dominado pelo dinheiro, pelo capital. E essa é a maior brecha para a entrada da droga em suas vidas.



Eu girava. Eles começam, muito cedo, a fugir do mundo denso através das drogas. Muitos experimentam e esquecem. Outros permanecem. Há no mundo seres com graus de sensibilidade diferentes. Eu já sonhei que encontrava um povo cuja alma era vegetal e que se impregnaram de erupções contagiosas por não agüentarem a densidade do planeta terra. Eu também fui contagiada e, assim, deduzi que era um deles. Um sonho...

Um sonho que me levou a buscar coisas leves, belas, divinas em minha vida. Porque, se não as encontrasse, minha alma vegetal ficaria intoxicada. Uma semana após o sonho, a pele começou a ficar toda pipocada, de fato. Mesmo com a insistência de alguns, não recorri a um médico. Eu precisava apenas encontrar algum ponto, uma pequena dimensão, onde a vibração suave me curasse. E aí entra a arte, a arteterapia e tantas outras histórias.



E lembro primeiro do cuidador, os que, por vocação, curam-se cuidado do outro Minha história de vida sempre passou por isso. Depois vem o olhar sobre o mito, Abaluaê, o africano; Quíron, o grego, e tantos outros mitos que encarnam o arquétipo do curador ferido. Minhas cicatrizes dos giros não nada perto das outras, as internas. Mas meus giros deixando-me algumas cicatrizes me parece, de alguma forma, significativo. Para alcançar uma dimensão mais leve, mais sublime, era preciso abrir a carne. Sempre. Haveria outras formas de sair dessa dimensão densa quando a criança crescesse. E houve!



A música me faz girar. O teatro me faz girar. A poesia provoca giros acelerados. Mas até chegar a essa descoberta, experimentando muitas promessas de paraíso. E volto a falar dos jovens de alma vegetal, talvez, brincando um pouco com o sonho. Refiro-me aos dependentes de drogas. Todas elas, lícitas ou ilícitas. Do corpo e do sentimento. As ervas, as químicas, os traficantes, a dor dos pais, a morte, tantas vezes...



Os jovens que recuperam o seu poder de sonhar acordados, que voltam a sentir o ...enlevo...na vida real, não se tornam dependentes de drogas, ainda que as experimente eventualmente. O remédio é a embriaguez dos sentidos, é o encanto que brota dos chãos mais duros da terra. Os jovens já não sonham verdadeiramente. Já não acreditam no impossível. O que há é o pesadelo do sistema que cria insatisfações eternas, para vender felicidade embalada. A vibração desse mundo de guerras, de atrocidades, de destinos preestabelecidos pelo sistema, pelos pais, pelas escolas, ela desarmoniza a alma dos jovens e adolescentes. E eles, inconscientemente, buscam um paraíso.



Cuidemos de reencantar o mundo. De nos reencantarmos com ele. Voltemos a sonhar. Voltemos, principalmente nós, adultos, maduros, voltemos a ensinar encantos e felicidade aos nossos meninos. A apontar uma estrela, a levá-los a um observatório para ver a nossa pequenez e os mundos que um dia iremos conquistar. Mostremos a eles o arco-íris. Contemos histórias fantásticas, onde o impossível torna-se possível pela magia. Ensinemos a eles onde se guarda a magia: dentro de cada um. Nós nos desencantamos, ficamos prisioneiros do sistema, e contaminamos nossos jovens. Temos o dever de reencantá-los.  É absolutamente urgente que voltem a sonhar, que reaprendam a sonhar.



A proposta da oficina do Sonhar com as Mãos abre-se também para pais que estejam dispostos a começar por si mesmos o aprendizado do devaneio, do sonho, aqueles que sonhamos acordados. Ou que sonhávamos.



A primeira oficina trabalhará a persona, nossa máscara social, conforme as etapas em direção à individuação de Jung. Contudo, a máscara que trabalharemos inicialmente é a palavra. As palavras são máscaras poderosas e funcionam, tantas vezes, como cárceres. Não libertam, aprisionam. Revelam, mas tornam a velar. Sonharemos. Caminharemos pelo território da não-palavra. Viveremos uma ambiência de sonho. E a Arte estará sempre presente, a nos lembrar da maior de todas as artes: a Arte de sermos nós mesmos! Verdadeiramente. Porque só assim seremos felizes.



Na segunda oficina do Sonhar, dando prosseguimento à primeira, trabalharemos “a palavra encantada”. Um momento imperdível, que nasceu do fundo da alma, da alma da arte, da poesia. Mais esse é outro papo.


Mas antes de terminar, preciso voltar a falar das origens dos sonhos. Os seres, por exemplo, de alma vegetal, tem a origem de seus onde? E sua origem? E a do outro? Seriam a mesma? Sonhemos. Sem palavras gastas, rotas, puídas, corrompidas. Sonhemos com as mãos, mas nos aventuremos pelos caminhos dos outros sentidos.  


























Dia 5/10/2013
Horário: das 08 às 12
Investimento: R$ 160,00
Para os que se inscreverem até o dia 5 de setembro: R $120,00



As inscrições poderão ser feitas através do e-mail trcontreiras@gmail.com, com o envio do comprovante de depósito.

Ag: 1236 OP 013 Conta-poupança: 110635-8

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21 de ago de 2013

Sonhar com as Mãos: um aventura arteterapêutica




"Capta essa coisa que me escapa"


Sonhar é um poema. Acredito que sim. Nessa perspectiva, todo sonhador é um poeta. Um poeta que, ao despertar, esquece as suas próprias metáforas, e quanto maias busca aproximar a luz do seu poema noturno, mais se distancia da compreensão de sua criação e de si mesmo. A luz do dia ofusca as imagens noturnas. As palavras, muitas vezes, distanciam os sonhos de sua essência, desvirtuando-lhe a linguagem. É como as pessoas que buscam entender a poesia utilizando a lógica da razão, impossibilitados de captar a dimensão do reino da não-palavra.

As palavras são véus. Sob eles, outros véus. A mesma máscara que nos desfigura o semblante encarcera linguagens infinitas, nas palavras-clichês, na linearidade que deforma nossos passos e distancia-nos do nosso Destino. E vem a lembrança de Clarice Lispector: “O que eu te falo nunca é o que eu te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão”. A expressão de Clarice – “brilhante escuridão” – também nos faz recordar da dimensão onírica, noturna por natureza, e da substância da qual são feitos os sonhos. Mas, sim: é preciso captar essa coisa que nos escapa quando tentamos traduzi-la em palavras.

A primeira oficina “Sonhar com as mãos” é uma aventura pelo reino da não-palavra. O poeta Manoel de Barros já falou inúmeras vezes da necessidade de “restituir a virgindade das palavras”, porque, segundo ele, elas estão morrendo pelo uso dos clichês. Talvez esteja aí uma das razões de os sonhos parecerem tão enigmáticos, tão absurdos, sem sentido – os sonhos não são prisioneiros dos clichês. Não têm um relacionamento íntimo com o mundo desperto e nem podem ser subjugados pela literalidade. Sonhar é amplo, cósmico, mas também visceral e selvagem. “Não há de ser com a razão, mas com a inocência animal que se enfrenta um poema”, escreveu Manoel de Barros. Para compreender o sonho-poema é necessário que também cuidemos do animal ferido que há em nós. É preciso aprender a voz das coisas. Aventurar-se a desconstruir a palavra hirta. Encontrar-se a singularidade. Com a sensualidade das cores, que também ficaram aprisionadas pelos clichês. Nossa primeira aventura do “sonhar com as mãos” é o início de uma estrada que nos levará de volta a nossa casa, à nossa essência, à nossa singularidade. Sonhemos com as mãos!


Local, data e horário encontram-se no folder.

Incrições: abertas a partir de dia 1º de setembro

Investimento: R$ 160,00. Para os que se inscreverem até o dia 5 de setembro: 120,00

As inscrições poderão ser feitas através do e-mail trcontreiras@gmail.com, com o envio do comprovante de depósito.

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(Leiam as postagens anteriores, referentes ao trabalho que será desenvolvido)





A dor de homem, por mais que dilacere o peito, cria um jeito de ficar contida, às vezes até escondida, para não afrontar as normas, as regras.

Mas há a dor do bicho. A dor de bicho dilacera, urra, retumba, sangra as carnes desprevenidas. Sua voz se faz ecoar em lugares distantes. Atravessa florestas, às vezes, e se anuncia a distância.

Cuidamos muitas vezes das nossas dores humanas, esquecendo sempre há muitas feridas no nosso bicho. Bicho tantas vezes amordaçado, implodindo sua cólera oprimida. Bicho que não pode ser curado pelos caminhos “virtuosos” do homem. O bicho precisa expressar sua dor na sua linguagem.

Nós temos um bicho ferido. De nada adianta curar o homem se não curarmos o bicho. O bicho enfraquecido adoece o homem. Ele precisa chorar o seu urro, relinchar sua dor, retumbar a aflição que lhe toma o corpo e lhe possui pelas vísceras. As Dores Primais vão-se armazenando uma a uma em lâminas empilhadas de tensões que procuram libertar-se, mas isso só pode acontecer desde que haja ligações com suas origens. Que usemos a linguagem das dores primais.

A maioria de nós ainda não deu seu grito primal. A gente tem medo. Mas esse grito primal desobstrui os canais que nos impedem de fluir. A ferida do nosso animal ruge. Urra. E só assim a dor é liberada.

Curamo-nos de dentro para fora. E isso também se dá nas feridas mais primais do homem – a ferida do seu próprio animal interior.

Na nossa 1ª Oficina Sonhar com as Mãos, faremos contato com a ferida primal. Ali, no vermelho da ferida, encontram-se sementes das mais belas e perfumadas flores. Flores raras. Que brotarão sob uma orquestra onomatopéica animal. Serão as primeiras vozes da nossa casa do sonho, da nossa Aventura pelo Sonho. O corpo musical que erguerá nossos outros corpos.

Clarice Lispector, no Livro dos Prazeres, fala algo que nos interessa aqui, no contexto:

"Uma Experiência

E Lóri pensou que talvez essa fosse uma das experiências humanas e animais mais importantes. A de pedir socorro e, por pura bondade e compreensão do outro, o socorro é dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu já pedi socorro. E não me foi negado.

Senti-me então como se eu fosse um tigre perigoso com uma flecha cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. E então uma pessoa tivesse sentido que um tigre ferido é apenas tão perigoso como uma criança. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, tivesse arrancado com cuidado a flecha fincada." Pág. 139.

A vivência da Arte dentro da Arterapia proporciona atingir dimensões mais longínquas das nossas dores. Na nossa primeira Oficina Sonhar com as Mãos, vamos buscar o animal ferido, deixando que ele libere a sua dor, e, então, poderemos, em seguida, entrar no Reino dos Sonhos. Sacralizando o sonhos, como faziam os antigos. Entrando em contato com as substâncias materiais que serviam de inspiração para nossos ancestrais. Criaremos com a intuição. Criaremos sonhando. Criaremos em sintonia com as primeiras criações dos homens. Com o barro do qual conta-se que foi feito o primeiro homem. As nossas mãos sonharão. Sem a intervenção mental: buscando serem guiadas apenas pela intuição. Nós nasceremos de nós mesmos. Deuses de si: um dia assim seremos todos!

A Oficina Sonhar com as Mãos é uma Aventura Arteterapêutica para os que não temem ir ao fundo de si mesmo, buscarem-se. E a Arte estará presente em, pelo menos, quatro modalidades diferentes.

Olhamos o mundo externo com nostalgia. Como afirmou o filósofo Bachelard, “antes de ser um espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica”. O mundo que contemplamos hoje já foi sonhado um dia. Reaprendamos os caminhos do Sonho!















12 de ago de 2013

Sonhar com as Mãos







Arte: Kalliope Amorphous



As mãos sonham. Este foi o primeiro insight que a Arteterapia me trouxe, quando ainda nem compreendia completamente os benefícios da nova abordagem terapêutica, sendo eu uma peregrina fatigada dos caminhos já um tanto enfadonhos das palavras. Não que a palavra em si não tenha o seu brilho, não se rompa em fagulhas que acabem por fazer arder a alma. A palavra é centelha que pode transformar noite em dia, angústia em êxtase. Pode trazer luz e revelar sombras ávidas por uma vida real. Mas não qualquer palavra, eis a verdade.

O filósofo Gaston Bachelard, em A Poética do Devaneio, chama a atenção para as palavras que perderam seu onirismo interno. E sugere uma pesquisa sobre os nomes que ainda sonham, os nomes “que são filhos da noite”. Quais seriam as palavras que ainda sonham, o verbo que delira, como teima em desejar o poeta mato-grossense Manoel de Barros? E o que tem a palavra a ver com o sonhar, com as mãos embriagadas de escuridão, enxergando apenas pela luz da intuição, vivenciando o devaneio diurno de que nos fala Bachelard?

A oficina Sonhar com as Mãos veio nascendo, pouco a pouco, desde o primeiro impacto provocado pela Arteterapia, e se desenvolvendo, enquanto projeto, a partir de reflexões de textos junguianos, pós-junguianos, da filosofia poética de Bachelard e das vivências da vida real, a escola da vida, que nos traz um saber indiscutivelmente precioso. A primeira oficina, que acontecerá no dia 5 de outubro, ainda não foca as palavras que sonham, não tem a finalidade de ir ao encontro das palavras noturnas, do verbo enlouquecido. Poderíamos dizer que ela é a primeira etapa de um processo que se desenrolará no seu ritmo próprio e tem como um dos objetivos trabalhar a não-palavra, a comunicação que se dá sem o verbo, a confiança de que é possível sonhar com as mãos.

Mais que uma oficina, o Sonhar com as Mãos é uma aventura. É uma proposta de devaneio diurno. Não conceituaremos os sonhos.  Não os definiremos. Ao contrário disso, vivenciaremos os sonhos, buscando, tanto quanto possível, nos aproximar da fronteira que divide esses dois universos: o diurno e o noturno. Entraremos no Reino da não-palavra. Nós nos colocaremos em estado de alma nascente. A imaginação é capaz de nos fazer criar o que ainda não foi concebido. E o “sem-nome” haverá de se impregnar de onirismo, que se recobrirá da palavra virgem, fruto da imaginação.

Mas sentiremos a dor do animal ferido, o animal esquecido no fundo do homem. O animal que precisa encontrar o seu som, a voz da sua dor, a carícia da mão humana sobre seu próprio ser esquecido, ferido, esperando a hora do grito e da canção. E com as mãos, criaremos aquilo que ainda não foi dito, que não pôde ser proferido, porque não cabia na linguagem dos homens.

Sonhar com as Mãos é uma aventura profunda em busca da imaginação criadora. O primeiro passo para o encontro com as palavras que sonham. A ambiência de sonho nos proporcionará o encontro com o território onde será possível conhecer os sonhos...sonhando! Sonhemos juntos!

20 de mai de 2013

A roupa da sombra








não
ele não sabe
que é a sombra
quem constrói
sua própria roupa.

sou roupa
da sombra
com matizes
contrastados.

sou sobra
da vida real
filha parda
da escuridão.

meu ser desnudo
não conhece a oposição
a dor não compensa
a pele é um manto cósmico
que abriga alienígenas.

sim, mas ele
ignora que
é reflexo externo
das trevas profundas.

os trinta tons
de verde
que brotam
das profundezas
da terra
se arvoram
em ser criadores
embora criados
pela esperança
de um abismo
cósmico.

18 de mai de 2013

"...Me ajude a ser feliz"









(Essa crônica de Rubem Alves tem relação profunda com o post anterior, por isso resolvi postá-la; ao mesmo tempo, implicitamente, considerando o post anterior, verificamos como a Arteterapia pode ajudar a modificar esse panorama).



Estou com medo de que as crianças me chamem de mentiroso. Pois eu disse que o negócio dos professores é ensinar a felicidade. Acontece que eu não conheço nenhuma criança que concorde com isto. Se elas já tivessem aprendido as lições da política, me acusariam de porta voz da classe dominante. Pois, como todos sabem, mas ninguém tem coragem de dizer, toda escola tem uma classe dominante e uma classe dominada: a primeira, formada por professores e administradores, e que detém o monopólio do saber, e a segunda, formada pelos alunos, que detém o monopólio da ignorância, e que deve submeter o seu comportamento e o seu pensamento aos seus superiores, se desejam passar de ano.


Basta contemplar os olhos amedrontados das crianças e os seus rostos cheios de ansiedade para compreender que a escola lhes traz sofrimento. O meu palpite é que, se se fizer uma pesquisa entre as crianças e os adolescentes sobre as suas experiências de alegria na escola, eles terão muito que falar sobre a amizade e o companheirismo entre eles, mas pouquíssimas serão as referências à alegria de estudar, compreender e aprender.

A classe dominante argumentará que o testemunho dos alunos não deve ser levado em consideração. Eles não sabem, ainda… Quem sabe são os professores e os administradores.
 
Acontece que as crianças não estão sozinhas neste julgamento. Eu mesmo só me lembro com alegria de dois professores dos meus tempos de grupo, ginásio e científico. A primeira, uma gorda e maternal senhora, professora do curso de admissão, tratava-nos a todos como filhos. Com ela era como se todos fôssemos uma grande família. O outro, professor de Literatura, foi a primeira pessoa a me introduzir nas delícias da leitura. Ele falava sobre os grandes clássicos com tal amor que deles nunca pude me esquecer. Quanto aos outros, a minha impressão era a de que nos consideravam como inimigos a serem confundidos e torturados por um saber cujas finalidade e utilidade nunca se deram ao trabalho de nos explicar. Compreende-se, portanto, que entre as nossas maiores alegrias estava a notícia de que o professor estava doente e não poderia dar a aula. E até mesmo uma dor de barriga ou um resfriado era motivo de alegria, quando a doença nos dava uma desculpa aceitável para não ir à escola.

Não me espanto, portanto, que tenha aprendido tão pouco na escola. O que aprendi foi fora dela e contra ela. Jorge Luís Borges passou por experiência semelhante. Declarou que estudou a vida inteira, menos nos anos em que esteve na escola. Era, de fato, difícil amar as disciplinas representadas por rostos e vozes que não queriam ser amados.

(...)

Os métodos clássicos de tortura escolar como a palmatória e a vara já foram abolidos. Mas poderá haver sofrimento maior para uma criança ou um adolescente que ser forçado a mover-se numa floresta de informações que ele não consegue compreender, e que nenhuma relação parecem ter com sua vida?
Compreende-se que, com o passar do tempo a inteligência se encolha por medo e horror diante dos desafios intelectuais., e que o aluno passe a se considerar como um burro. Quando a verdade é outra: a sua inteligência foi intimidada pelos professores e, por isto, ficou paralisada.

Os técnicos em educação desenvolveram métodos de avaliar a aprendizagem e, a partir dos seus resultados, classificam os alunos. Mas ninguém jamais pensou em avaliar a alegria dos estudantes – mesmo porque não há métodos objetivos para tal. Porque a alegria é uma condição interior, uma experiência de riqueza e de liberdade de pensamentos e sentimentos. A educação, fascinada pelo conhecimento do mundo, esqueceu-se de que sua vocação é despertar o potencial único que jaz adormecido em cada estudante. Daí o paradoxo com que sempre nos defrontamos: quanto maior o conhecimento, menor a sabedoria. T. S. Eliot fazia esta terrível pergunta, que deveria ser motivo de meditação para todos os professores: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?”

Vai aqui este pedido aos professores, pedido de alguém que sofre ao ver o rosto aflito das crianças, dos adolescentes: lembrem-se de que vocês são pastores da alegria, e que a sua responsabilidade primeira é definida por um rosto que lhes faz um pedido: “Por favor, me ajude a ser feliz…”