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11 de mai de 2015

Pólen no olhar






Arte: John Ballou Newbrough



(Dedico aos colegas Arteterapeutas )





Nas minhas ficções pessoais enquanto arteterapeuta, às vezes imagino que sou aprendiz de borboleta, cuja função na vida é, essencialmente, polinizar olhares desencantados.  Digo-me aprendiz, porque creio que todo terapeuta é sempre um aprendiz de si mesmo, e os pacientes são fragmentos de sua própria Dor materializada. No fundo, imagino que um dia alguns se reconhecerão estrelas de uma mesma constelação há muito desmanchada.
Esse é também o Devaneio que alimenta a loucura de amar a humanidade, o paraíso do chão, onde os deuses enfraquecem homens e mulheres e atiram os animais numa selva insólita e petrificada, entregues a sua própria sorte. Sim, é preciso amar profundamente o que é humano, o que ainda rasteja, alheio a asas que clamam por libertação.   Acredito que esse deva ser o Primeiro Mandamento para aqueles cujo destino é cuidar do outro, conhecer a textura subjetiva dos seres humanos. É preciso amar o pó da terra como amamos o brilho das estrelas.
Dentro dessa percepção, questiono-me sobre o papel real das religiões, indago-me a respeito dos instintos artificialmente domados, da imposição de “caminhos da salvação” estreitos, sufocantes, paraísos forjados de modo a desmerecer o que humano, a obscurecer a Beleza terrena, a negar a possibilidade de se viver o sagrado por meio de cada gesto profundamente humano.  Talvez, de tanto buscar no alto o sentido da existência, desaprendemos a olhar o sagrado do chão, a Escuridão humana, em cujo ventre encontra-se a Luz.
O fato é que fomos, pouco a pouco, rejeitando a nossa humanidade, rotulando nossos ímpetos criativos mais primitivos de “pecado”, entediando as nossas retinas com clichês fantasiosos de Beleza e Felicidade.  Temos ânsia de Eternidade e vamos caminhando em frente, com passos apressados, ávidos pelos paraísos que se encontram sempre mais à frente. Nesse caminhar horizontal, vamos perdendo a vida, deixando pelo caminho a Seiva. Artificializando a Existência. É preciso verticalizar a caminhada e conhecer as nossas profundezas.  É preciso vivenciar a plenitude das coisas ínfimas; encontrar a diversidade de paraísos terrenos; encarar “a ferida que não cicatriza nunca” de uma nova forma, com um olhar metafórico, que encontrará uma infinidade de sentidos – com os matizes claros e escuros – para toda e qualquer experiência vivida.
O que vivenciei no processo de formação em Arteterapia legitima a minha ficção pessoal, a minha metáfora íntima de borboleta polinizadora.  Havia pólen no olhar de quem me ensinou a amar a Arteterapia. Meu mundo largou-se, coloriu-se, abriu espaço para a Beleza. Usando uma expressão hillmaniana, fui reaprendendo a “fazer alma”.  E hoje compreendo que o papel da Imaginação é fundamental em toda terapêutica.  Muito mais do que antes, também compreendo que é preciso ir além da realidade para encontrar o Real.  Já não quero ver, apenas; quero “transver” – desejo despertado pelo inesquecível poeta Manoel de Barros: “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê”. Só através da Imaginação o homem pode lançar-se a uma nova dimensão da vida, deixando para trás o ordinário e conectando-se com a alma das coisas.
Tudo isso me faz lembrar do tão falado “terceiro olho”, pelos esotéricos, por algumas correntes espiritualistas, uma e outra religião.  Consta que o terceiro olho é a origem da intuição e corresponde a uma possível glândula entre os nossos olhos humanos, visíveis.  Existem, entre eles, inúmeros exercícios para desenvolver esse olho oculto, a intuição. Pois eu creio que não há exercício melhor do que o ato imaginativo para desenvolvermos não somente a capacidade intuitiva, mas também para curarmos os nossos olhos, desliteralizar a percepção, transformando-a em Imaginação.  A Poesia como olhar – não meramente como gênero literário – é a única saída que nós, a Humanidade, podemos ter.

Nossas imagens pessoais foram adulteradas, falsificadas, pela literalização da existência. A herança cartesiana teve força suficiente para literalizar até mesmo os símbolos.  E só podemos reverter o embotamento, a cegueira dos homens para a alma das coisas, se nos dermos conta de que apenas enxergamos, já não vemos. Ou apenas vemos, quando é preciso transver. Evocando Clarice Lispector, poderíamos dizer que as linhas cartesianas esmagaram as entrelinhas, onde mora a Alma.  E mais uma vez chamando em meu socorro o poeta Manoel de Barros, um alerta: "As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis. Elas desejam ser olhadas de azul.”   E nós podemos, sim, enxergar o divino azul humano aqui na Terra. 

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