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22 de abr de 2013

A poesia na Arteterapia: o verbo em delírio










“A poesia é o que permite o real, ainda que hoje o real a oculte, entulhado na rotina dos sistemas”.  A afirmação do poeta e contista Márcio André é contundente e pode parecer inverossímil para os que têm pouca ou nenhuma intimidade com a poesia. Há os que separam poesia e arte, como se a poesia não fosse arte, como se não fosse ela uma linguagem primordial, como se sua origem não se confundisse com a própria origem da linguagem. O músico e poeta Arnaldo Antunes, em um artigo sobre o tema, afirma que “talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia”, ou questionar a origem do discurso não poético.

Costumam me perguntar se, no contexto da Arteterapia, a poesia é considerada arte. Afirmo que sim, mesmo reconhecendo que ela ocupa um lugar muito discreto, apesar de ser uma linguagem artística primordial. Felizmente, na minha formação em Arteterapia ela esteve presente, e pude, assim, confirmar o que a experiência de vida já me mostrara, uma vez que a poesia chegou cedo na minha vida.

Devo confessar que o que li a respeito da poesia no contexto arteterapêutico, durante a formação, estava bem aquém do potencial curador da poesia, talvez porque faltasse ao autor uma intimidade maior com esse gênero literário e não tenha podido olhá-lo com uma percepção mais ampla. Mas a verdade é que a poesia é uma ponte maravilhosa entre o mundo visível e o mundo invisível e, como todas as modalidades artísticas, tem o poder de tocar o intangível, o invisível.

Arnaldo Antunes sugere que talvez a poesia possa ser considerada a infância da linguagem, “antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando duas metades – significante e significado”. Esse ponto de vista é muito interessante e pertinente. Quando “poetizamos”, libertamo-nos da percepção linear que vamos adquirindo ao longo da vida. Colocamos em funcionamento o lado direito do cérebro, responsável pela criatividade, pela intuição, pela expansão do olhar.

Podemos fazer um paralelo entre a poesia e os desenhos infantis, pré-alfabetização, quando a espontaneidade e a singularidade são marcas libertadoras da alma. Uma criança, nos seus primeiros anos de vida, antes de ser alfabetizada, desenha uma árvore de copa azul e um sol verde com pequenas flores vermelhas. À medida que as “regras” lhe vão sendo inseridas, a copa da árvore torna-se, invariavelmente, verde e o sol amarelo. Ponto. Mas, então, vêm os artistas, vêm os poetas, e “enlouquecem o verbo”, como diria o poeta Manoel de Barros. Os poetas trazem a insanidade para as palavras, revelam o que a palavra reta não sabe revelar. Trazem do inconsciente símbolos de uma riqueza incomensurável para o auto-reconhecimento.  Retratam-se e ao mundo tendo por base outra ou outras realidades. Rosas azuis, cílios falantes, sol com rubores na face, xícaras falantes, e instala-se, assim, novamente a infância da linguagem, revelando feridas, reacendendo esperanças.

Costumo sempre lembrar que a poesia foi o meu “primeiro deus”.  Eu, que descria do deus que me foi ensinado e tinha dúvida sobre a existência de algo que transcendesse a existência humana, encontrei na poesia, ainda na pré-adolescência, aspectos metafísicos, elementos que transcendiam o mundo fático. Ali havia algo sobre o qual eu me debruçava reverentemente. O indizível – que já era causa de tantas das minhas precoces angústias – estava dito ali. Aquilo me acalmava. Aquilo impregnou meu olhar. Aquilo tomou minha alma, minhas mãos e foi se dizendo aos poucos no papel branco, o qual eu mirava, serena, pensando depois: “O que eu precisava dizer foi dito”. Ainda que ninguém entendesse. Porque havia em mim um tanto de coisas sem nome, um tanto de angústias sem face, um mundo bastante diferente daquele outro onde eu precisava existir.  

Ilya Prigogine, prêmio Nobel de física, afirmou que a realidade é somente uma das realizações do possível. E o poeta Marcos André reafirma isso ao citar que “a ciência explica que a lua é um satélite. Mas esta não é a lua, é uma das facetas da lua. A lua é isso e muito mais”. Muitos cientistas já se dão conta hoje do absurdo que é a realidade.

Mas é possível utilizar a poesia na arteterapia? Sim, é. A leitura de um poema pode fazer emergir memórias adormecidas, através de símbolos, pode ajudar a dar forma àquilo que não sabemos ao menos nomear, pode expandir a consciência, fazer que retornemos à infância, nos seus aspectos mais essenciais para o equilíbrio, a saúde, quais sejam, a espontaneidade, a singularidade, a criatividade, a essência do que verdadeiramente somos, da qual nos perdemos.

É possível criar poesia, escrever, ao longo do processo arteterapêutico? Sim, também. A poesia transmite níveis de comunicação muito acima da literalidade. Trabalhar com poesia é trabalhar com o imaginário. Para quem nunca tentou, é fácil começar com associações livres, sem recear o “absurdo”, o “ilógico” Há muitas outras técnicas que, associadas à poesia, descortinam partes significativas do universo simbólico do inconsciente.

Um dos poetas, na minha opinião, que mais demonstram o quanto o fazer poético pode ser curador, remetendo-nos ao mito da origem, é Manoel de Barro. Em sua poesia, sempre está, mesmo nas entrelinhas, a necessidade do “desaprender” para alcançarmos a essência do que somos nós. O mito primordial da origem pulsa na poesia de Barros. E segundo Elíade, “ o retorno à origem permite um novo nascimento místico, o qual conduz à possibilidade de renovar e regenerar a existência daquele que empreende sua busca”. Na poesia de Barros, a origem, a perfeição, está na criança. Não é, portanto, por acaso que entendo a Arteterapia como uma abordagem que busca curar as feridas mais profundas, escondidas, cuja origem, muitas vezes, encontra-se na passagem da infância, com inúmeras possibilidades de realidade, para o adulto, que caminha reto e se perde dos potenciais criativos no meio do caminho. E para terminar essa prosa, Manoel de Barros:




“No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.”

3 comentários:

  1. Assim como todas as regras sociais que aprendemos, e que na maioria das vezes não atendem a nossa demanda e nem dizem do que somos, a poesia é a antiregra(tem hífen?). É o dizer-se mesmo na incompletude que faz dar prosseguimento à sua existência, ao delírio que constitui cada ser na sua singularidade.A poesia é a verdade de cada um,a expressão livre da alma...e é muitas e muitas coisas mais!amei o texto!

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  2. a poesia é minha capa mágica.


    beijo carinhoso,
    querida Tânia.

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  3. a origem, o mito, a palavra: tudo nos converge



    beijo

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