Gente que inspira

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27 de abr de 2013

Um passarinho mora dentro de mim





Como poeta de alma, posso falar nos deuses-artesãos que imagino serem os cuidadores dos pequenos e significativos detalhes da minha existência. Eles fazem os arremates, o acabamento, entrelaçam fios importantes da Grande Teia, e vão, pouco a pouco, conduzindo-me ao meu Destino. Não sei bem se isso é crença ou poesia, fé ou delírio poético, mas sei que creio que assim é.

De tempos em tempos, uma palavrinha-semente é soprada para o solo fértil da minha alma, eu a escuto, rego-a como se fosse mesmo uma plantinha e fico atenta para a síntese que ela está trazendo à minha vida. Nos últimos anos, “singularidade” é a palavra que se aninha em mim e insinua-se em cada gesto, cada ação, cada projeto, sonho, desejo. As palavras-sementes não nos chegam à toa. Têm a ver com nossa história de vida e se apresentam sob diversas formas, ao longo da vida, até que tenhamos condições de decifrar a mensagem da Alma.

Nunca fui convencional, sempre duvidei do óbvio, acreditava, ainda na infância, que havia um dialeto só meu, esquecido por algum motivo que eu desconhecia, e sabia que, mais cedo ou mais tarde, iria querer recuperá-lo. Os caminhos tentados foram vários, porque há que se procurar, sempre, o seu próprio caminho. De alguma forma, a tal da “singularidade” passava roçando por mim e eu ainda receava olhar sua face. Um dia olharia. Um dia olhei.

Hoje sou, formalmente, uma terapeuta. Preparei-me tecnicamente para isso. Digo tecnicamente, porque um cuidador de almas nasce cuidador de almas. Os instrumentos que utilizará podem ser muitos. Ou nenhum, se não descobrir o que significa a ferida sangrando invisível e profundamente e ensinando-lhe o que é dor, o que é amor, o que é compaixão. Eu nunca soube exatamente qual seriam os meus instrumentos. Sabia, sim, que precisava escutar e traduzir a linguagem do sangue escorrendo nas cavernas da minha alma. Escutar-me. Cuidar de mim. E foi com a palavra, essa amiga íntima com a qual sempre entro em desavença, que comecei a minha jornada. Terapias nas quais a palavra era o instrumento principal. Psicanálise, Psicodrama, Psicologia analítica, xamanismo, PNL, enfim, muitas buscas, que foram elucidando-me para mim mesma.

Mas faltava algo. Por mais que me grudasse à palavra, que a enaltecesse, havia lacunas que a palavra não supria. Seria o meu dialeto esquecido? Foi quando encontrei a Arteterapia. Será? – pensei... Mas os tais dos deuses-artesãos, desse meu delírio poético, foram me conduzindo a ela. Arteterapia cura mesmo? – muitos, que ainda desconhecem o que seja exatamente a Arteterapia me perguntam. Resposta: não! Nada cura ninguém. O que entendo por cura, no sentido profundo da palavra, seria algo como a iluminação, a perfeição. E a perfeição não existe. Aliás, a ânsia de perfeição chega a ser patológica.

Mas, se a Arteterapia não cura, o que ela faz? E, outra dúvida: submeter-se à Arteterapia é fazer arte? Posso sozinho fazer esse caminho, pintando, dançando, escrevendo, desenhando...?

Posso falar da minha experiência particular com a Arteterapia. Não, eu não acredito em caminhos únicos. Acredito na “singularidade” de cada pessoa e em caminhos que se ajustem mais ou menos ao que cada um de nós somos. Na minha vida, a Arteterapia veio como o caminho ideal. A sensibilidade de minha alma é aquela sensibilidade dos artistas. O dialeto que eu procurava e do qual me julgava esquecida não era necessariamente um dialeto. Há vivências, sentimentos, emoções, dores, feridas, percepções que não podem ser definidas com palavras. Para alguns, ressalto sempre. E aí é que entra a Arteterapia. E foi aí que se deu a grande surpresa em minha vida: falar através de diversas modalidades artísticas, sem que fosse necessário ter conhecimento prévio de técnicas, sem preocupações estéticas e, o mais importante, travando um diálogo lúdico, maravilhoso, com a minha criança interna.

As várias modalidades artísticas servem a vários propósitos. Todas elas são capazes de fazer ponte com esse universo misterioso, escuro, chamado inconsciente. E cada modalidade ajusta-se melhor a determinado fim, o que exige do arteterapeuta o conhecimento da alma, a vivência e o amadurecimento que desvelarão, pouco a pouco, os véus que recobrem as feridas escondidas. O inconsciente fala-nos através de símbolos, de imagens simbólicas, que se projetam na colagem, na modelagem, na pintura, no desenho, na assemblage e em tantas outras modalidades utilizadas pela Arteterapia.

É uma terapia suave. A palavra está sempre presente, porque a palavra é indispensável. Mas a magia das auto-revelações acontece mesmo com a criação. Eu, que já vinha de outras terapias que priorizavam a palavras, que trazia as lacunas do indizível – mesmo através das associações livres, dos atos falhos e de tantos outros recursos válidos e que me auxiliaram bastante –, pude, finalmente, dizer o indizível através da expressão artística. Reconhecer no processo do criar muito do que era em mim conflitos, medos, impossibilidades...

A vivência que tive como professora de Redação por alguns anos mostrou-me que não haveria técnica que fizesse com que os alunos a caminho da Universidade aprendessem a escrever. Porque não sabiam imaginar. Porque vivemos uma crise muito grave de falta de imaginação. Porque a chamada “realidade” não nos dá muitas possibilidades de voo. Passei por sustos enormes vendo alunos com uma coleção de palavras dadas por professores, tentando inseri-las no texto que nem nascia. Outros, com régua, medindo o tamanho do texto, orientados também por professores. E ninguém sabia mais imaginar, como já souberam um dia, antes de serem enquadrados na “realidade”.

A Arteterapia desperta a criança entorpecida dentro da gente. Abre os porões onde muitas foram trancafiadas. Retira a mordaça de tantas outras. Convida e estimula cada um de nós à expressão singular, sem julgamentos, sem avaliações estéticas. E, podem acreditar, revela facetas nossas das quais não nos dávamos conta. Não sabíamos. Desconhecíamos. Além disso, é muito gratificante materializar, em forma de arte, um conflito, um medo, um anseio, uma dor até então desconhecida. O resultado disso mais direto é sermos apresentados à nossa essência verdadeira. É olharmos uma criação e, pasmos, dizermos: “Mas então era isso que me fazia recear dar um passo novo na minha vida? Era isso que impedia que eu me tornasse mais flexível? Era isso que me causava insônia?  Não raras vezes, perguntamos: “Eu fiz isso? Fui eu mesmo?”.

Nossos fantasmas invisíveis vão ganhando forma. Às vezes são de barro, de argila, esse material ancestral que pode ajudar a materializar anseios, feridas primitivas. Às vezes os fantasmas cantam um canto todo seu, que vem de um bosque esquecido de sua infância, e você se vê passarinho, a dizer coisas que só os passarinhos entendem, mas que fazem com que os humanos ouçam e comecem a compreender que você é um pássaro. Outras vezes, os fantasmas projetam-se em aquarela, multicoloridos ou negros, e você dialoga com eles. E a gente não tem medo de ser arte. Não tem medo de ser vísceras e sangue, nuvens ou água.

Durante a formação, vivi a experiência do canto da minha alma. Eu não sabia quem cantava em mim, mas era eu. Nunca ouvira, de fato, aquela voz, aqueles sons. Os colegas emocionaram-se, houve quem chorasse até. Mas, eu, com minha alma poética, pensei: um passarinho mora em mim! E fiquei feliz. E descobri que é preciso conhecer todas as vozes que nos habitam.

O sonho de realizar a oficina Sonhar com as Mãos é antigo. Mas antes eu precisava dar forma artística a todos os meus fantasmas. As oficinas estão a caminho. Será um espaço onde, juntos, reaprenderemos a imaginar, recuperaremos a nossa singularidade, teceremos sonhos com as mãos. As imagens oníricas ganharão forma. Poderemos confeccionar com as mãos os sonhos, soprar e dar-lhe vida real.  

Nós somos singulares, por mais que todo um sistema tente fazer com que nos tornemos robôs, criaturas em série, vestidos iguais, penteados iguais, repetindo as mesmas palavras e consumindo sempre mais e mais à procura da felicidade. A felicidade só se aproxima de quem busca ser o que verdadeiramente é. E para sabermos quem somos é preciso libertar a imaginação.

Fazer arte não é arteterapia. Arteterapia é utilizar a arte como ponte para o nosso mundo desconhecido. O profissional da Arteterapia é um facilitador do processo, preparado para reconhecer e ajudar a decifrar cada símbolo que emerge à luz através da criação. Antes de tudo, o Arteterapeuta é um profissional que ama o que faz. Que ama as pessoas e não teme a singularidade de cada um.

5 comentários:

  1. Uma definição linda,sensível, completa.Quem escolhe ter a arte como expressão e como forma de possibilitar ao outro a expressão de si mesmo escolheu tb seguir o caminho do coração. Bj

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  2. eis a singularidade tão bem expressa em seus plurais,



    beijos

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  3. linda sensibilidade, algo impar na sua poesia.curtindo você de montão. beijos sempre.

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  4. tô de olho.te vendo daqui!beijo grande.

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