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7 de set de 2015

A minha história









Eu cresci ouvindo histórias. Algumas contadas pelo meu pai e pela minha mãe, outras ouvidas das bocas nativas no interior onde cresci e em outros que visitei.  E cresci também ouvindo, no mínimo e sempre, duas versões diferentes de uma mesma história. Meu pai explicava sobre o folclore e apartava definitivamente qualquer parentesco das lendas com a realidade. Minha avó (mãe do meu pai) ensinava sobre o poder do canto das sereias, e afirmava que nenhum pescador estava imune ao feitiço vindo das águas. Meu pai contava muitas histórias, lia livros quando não sabíamos ler, comprava muitos livros e brincava com a imaginação. Mas fazia questão de deixar clara a diferença entre o “conhecimento” e as “crendices”. Minha avó era crendice pura, e aquilo fascinava.  Fui uma criança excessivamente imaginativa. Mas, em algum ponto da caminhada, a imaginação abandonou-me.  Caminhei por um bom tempo em linha reta, extenuada pela aridez da “realidade”, esse deserto sem oásis. Até que, essencialmente, a Arteterapia me salvou de mim mesma. Essa terapêutica é uma espécie de evocação à criança perdida no caminho, e, quando nos abrimos, seu resgate subsequente.
Mas os “encontros” ainda se dariam.  A dedicação a estudar Jung e autores outros que pudessem ampliar minha sensibilidade não foi o suficiente para amenizar a sensação de que a Psicologia carecia de “poesia”. Porque a poesia sempre foi uma paixão e um caminho. E eis que um sonho, sonhado dormindo, me mostrou pegadas poéticas nas areias Psi.  James Hillman viera, então, traduzir e dar amparo ao meu anseio. Junguiano, criador da Psicologia Arquetípica, considerado um dos expoentes da psicologia pós-junguiana, Hillman denunciou a “ausência de alma” na psicologia (o que eu chamava de “falta de poesia”) e recuperou o status da Imaginação, enquanto aspecto importante da Realidade, a sua contraparte, poderíamos dizer.  E um pouco mais poderia falar aqui da Psicologia Arquetípica – esse é um mundo que ainda começo a descortinar –, mas deixo aqui o convite para a vivência como oportunidade de conhecer e experimentar uma abordagem “almada”, como ele propôs.  A ciência não dá conta da Alma. É preciso estreitar nossas relações com a Poética. A vida que vivemos não merece uma leitura restrita a dores, transtornos, perdas, traumas, angústias, clichês que empobrecem qualquer história e impedem um novo olhar. Não que não tenhamos vivido tudo isso – até podemos e certamente essa é a crença da maioria –, mas não “exatamente assim”, como nos contaram e como nós próprios contamos.  A proposta da vivência é um novo olhar sobre a nossa história.  O que foi vivido... foi vivido. Mas a maneira de compreender e os sentidos usurpados da nossa história através da exclusão da dimensão imaginativa são “reencontrados” por meio de olhos encantados, por meio da Alma. E, assim, podemos contar a nossa história de outro ponto de vista, do ponto de vista da Alma, que esteve tanto tempo ausente e é nossa convidada especial.  É também desejo nosso – numa segunda etapa dessa vivência – organizar um livro com todas as histórias recontadas, num contexto onde a Arteterapia Junguiana e Pós-junguiana servirá de pano de fundo.

Para que o trabalho continue sendo uma surpresa, posso apenas adiantar que será um trabalho profundo, onde a Arte será a linguagem predominante.  Algumas técnicas arteterapêuticas serão utilizadas com o propósito de acessarmos o mundo imaginário povoado de vidas reais. Teremos a presença de Afrodite. Beleza e Alma garantidas. O resto será Poesia, devolvendo-nos as cores originais das nossas imagens. Tudo na Natureza. Fica o convite.

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