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5 de mai de 2013

Psicopoetas: A Psicologia Arquetípica de Hillman







Umas palavrinhas a respeito do Seminário de Marcus Quintaes sobre Hillman, criador da Psicologia Arquetípica, do qual participei e que terminou hoje. Muito terei o que falar após trilhões de reflexões e associações que farei. Mas quero registrar isso aqui com o olhar desse momento, que está fresco ainda.

Não foi fácil o primeiro impacto, resultante das desconstruções (mas como é bom desconstruir... acho que a desconstrução é também uma construção, construção do vazio, o útero de onde renasceremos). Mas eu já estava pronta. Quando comecei a estudar Hillman, a ler os seus livros e entrevistas, sabia que estava ali um homem que me faria morrer. Morro diariamente, como boa escorpiana, mas há as mortes profundas pressentidas. Não tenho medo da morte, muito pelo contrário. De algum jeito eu já sabia que estava morrendo, mas o Seminário deu conclusão a esse maravilhoso evento, que é a  Morte.

Eu procurava Hillman. Há muitos anos. Não sabia exatamente de onde viria quem ou  aquilo que eu buscava. Eu procurava a Poesia com o status de curadora, cuidadora, terapeuta. A Poesia foi cuidadora de minha alma por anos a fio. E ainda o é. Às vezes um verso dissolve velhos tumores da alma. E eu sei, sempre soube disso.

Nas várias terapias que já fiz, com profissionais competentes, com amor pela vocação, sempre sentia que, apesar de terem proporcionado muitas transformações positivas na minha vida, faltava algo importante. Eu não sabia exatamente o quê, mas tinha consciência plena de que faltava. Descobri com Hillman que o que faltava era alma. “fazer alma” é um termo de Hillman que sintetiza a minha afinidade com a Psicologia Arquetípica.

No fundo, não é nem possível falar com profundidade da Psicologia Arquetípica se quem o fizer não tiver alma de artista, não tiver poesia na alma. Isso é uma interpretação muito particular minha, uma visão de quem apenas está começando um caso com James Hillman. Porque a Psicologia Arquetípica é uma terapêutica poética. E talvez no fundo a vida seja mesmo um grande poema a ser vivido.

“Fique com a imagem”. Essa expressão de Hillman, por mais que eu lesse, sua compreensão me escapava. Parecia que alguma instância de mim entendia, mas conscientemente eu não me dava conta do que ele estava dizendo. O Seminário com Marcus Quintaes elucidou isso. Mais uma vez, numa leitura pessoal, eu diria que “Ficar com a imagem” é escolher a poesia, a beleza, escolher adentrar o sonho e tocar na sua tez. Ficar com a imagem é embriagar o olhar para ver mais e usar o tato para explorar a pele de seda do sonho, dos desejos, dos medos.

Outro aspecto da Psicologia Arquetípica que me seduziu profundamente eu posso explicar usando como exemplo a alopatia e a homeopatia. A alopatia, de uma forma geral, trata todas as pessoas com o mesmo remédio, sem considerar as diferenças. A homeopatia já olha o paciente de uma outra forma. Ela considera as diferenças na hora das prescrições. Pois então, a Psicologia Arquetípica nos singulariza. E eu acredito que toda inteireza é construída sobre o respeito às diferenças, Ser inteiro é acolher a diversidade. A psicologia de Hillman não petrifica as figuras mitológicas, não nos amarra a determinados arquétipos porque está longe de se aproximar do literal e muito, muito perto da literário.

Eu já tive muita dificuldade de engolir algumas interpretações de sonhos. Não era resistência, era uma percepção inadequada e viciada sobre eles, que não me trazia nenhum sentimento que pudesse atestar que eram legítimas as interpretações profissionais. Repito a expressão “olhar viciado” para acrescentar mais uma boa percepção da Psicologia Arquetípica: ela não vicia os olhares do analista, do terapeuta.  Ela não nos faz arrastar o peso dos símbolos, como se estivéssemos acorrentados a eles.  O símbolo é muito pobre em ralação à imagem. A imagem é muito mais do que a soma de símbolos, ao estilo bem cartesiano.

“Ficar com a imagem” é uma expressão sobre a qual ainda preciso refletir muito e sobre a qual estarei falando a qualquer hora por aqui.

É evidente que tudo isso modifica minha atuação como arteterapeuta.  Haverá mais poesia. As produções artísticas serão olhadas com muito mais amplitude. Os pacientes terão uma olhar singular sobre suas singularidades. Mas isso de uma forma efetiva.  Parece-me um casamento promissor e sólido esse entre a Arteterapia e a Psicologia Arquetípica. E por hora é isso. 

3 comentários:

  1. Agradeço o comentário sensível e profundo sobre um Seminário que desejei muito participar, mas fui impedida por circunstâncias e responsabilidades outras. Suas palavras confirmaram a minha previsão.
    Ana Liése Leal.

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  2. Oi Tania! que bonito o seu encontro com Hilmam. eu também senti algo parecido qdo li o Código de Ser , por aproximar a psicologia da Poesia e tb de ideias espiritualistas que eu sempre acreditei..Lamentei muito não poder ir ao seminário. O que me consola é que meu supervisor tem esse olhar " Ficar com a imagem"..é também uma sugestão que escuto, que pratico..e é muito bom. Aliás, ficar com a imagem e também ampliar para todos, possibilitar isso a quem te lê, é algo que vc faz muito bem e por isso, tanto vc quanto Hilman seguirão muito felizes nesse casamento..estou muito contente em ler nas suas palavras, o seu entusiasmo. Bjos!

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  3. eu lendo te lendo aqui dá até vontade adentrar mais pela área da psicologia para ter mais consciência de mim, muitas vezes escrevo e fico perguntando quem de mim fez isso? onde fui buscar isso? e fico sem respostas...quem sabe eu ainda me aventure pela psicologia! adorei seu texto!beijos

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